Simplificar

Este ano tem sido de boas descobertas. Uma delas sobre o minimalismo. Não no sentido de desfazer-me de tudo e viver numa tenda mas ir ao que interesse. É um caminho, é um processo mas está a ser feito. 

A Cláudia Ganhão apareceu-me nesse caminho através do seu blogue e da sua página no Instagram.

E o minimalismo pode e faz sentido viver-se também na nossa forma de ser mãe ou pai. Nem de propósito lá no blogue saíram ideias para Mães Ocupadas. Tão simples (a ler...) e desafiantes para se irem implementado aos poucos, à medida das nossas vidas. 

Partilho convosco aqui.


Madalenar

A parte boa de sermos Mãe é que o podemos fazer acompanhadas. Não me refiro aos pais das crias. Mas à outra aldeia que vamos construindo com o tempo, com amor, com as experiências e as pessoas-que-nos-querem-bem. As partilhas das pessoas-que-nos-querem-bem têm caminhos diferentes dos nossos e contam a sua própria história. Nessas histórias, quando temos a felicidade de irmos fazendo também um pouco de caminho em conjunto, às vezes cm, m e em alguns casos felizes, km de partilhas, podemos aprender muito nesse maternar em conjunto. 

Nesta minha aldeia cabem amigas-mães-pessoas-que-me-querem-bem muito diferentes na sua forma de estar como Mães. E isso é tão rico quanta a medida da diferença que cabe nos nossos corações. A diversidade de amar é tão grande que olho para elas com uma ternura imensa, gigante. Aprendo com todas estas minhas mães e a maturidade ensina que o podemos fazer, sem deixarmos de ser a nossa forma de maternar. Diria que será a maturidade e a segurança de afirmarmos quem somos como Mães e melhor ainda, quem queremos ainda vir a ser que nos permite, de vez em quando olhar para o outro, mantendo quem nós somos. Todos os dias há novidades e crescimentos dos nossos filhos, que nos fazem crescer como Mães e isso é tão desafiador, quanto maravilhoso. Partilharmos novos olhares e formas de estar só nos pode enriquecer.

Por isso, no outro dia, entre trocas de mensagens de uma destas minhas mães-lutadora-leoa-da-sua-cria, despedia-se com um simples: "Bom, agora vou-me. Vou Madalenar. Beijinhos." 

Amar alguém é, 
mais do que um poema, 
agir, 
é ir lá e fazer.

Dar um abraço, um beijo.
É chamar a atenção quando é preciso.
É rir com.
Brincar, ler em conjunto. Ou então cada um em seu canto do sofá mas mesmo assim estar perto.  
É ouvir, ouvir, ouvir.
Calar para ouvir. (Já disse que ouvir é importante?)
É caminhar com eles, andar de bicicleta. 
É descobrir novos cenários. 

Por isso, quando esta minha amiga-mãe-pessoa-que-me-quer-bem me disse que ia Madalenar, com a sua Madalena do coração, achei que seria um verbo lindo para adaptar e ir também Mariazar ou Joãozar. 

Às vezes, basta apenas estar lá para eles, naquele momento presente e conjugarmos o verbo em todos os tempos e modos que nos apetecer.















Precisamos de nos abraçar mais

Ontem ao fim do dia, entre passar roupa a ferro e começar a tratar do jantar, a Maria perguntou se podia ir jogar um jogo de tabuleiro porque ainda não tínhamos feito nada juntas. Num cenário lindo de novela, largaria tudo e ia jogar. Há dias em que é possível, ontem não dava porque sabia que daí a 40 minutos iam-me perguntar o que havia para o jantar e não lhes podia responder: jogo de tabuleiro! Então perguntei-lhe se queria fazer comigo, um bolo para comermos como sobremesa e assim estaríamos juntas a fazer algo. Concordou logo e foi tão bom aquele tempo de nós as duas. 

Semana passada, enquanto novamente passava a ferro, perguntei se queriam jogar um jogo de tabuleiro. Que eu tomaria as decisões e daria as respostas mas que pedia a ajuda deles para jogarem por mim. Estávamos os três juntos e divertimo-nos muito mesmo comigo com um ferro na mão. 

No outro dia, a Sónia Morais, do Cocó na Fralda, descrevia aqui um desabafo sobre as suas correrias de mãe com quatro filhos. Conciliar horários, esperas, levar uns a um lado enquanto, ao mesmo tempo, desenvolve o seu trabalho. Muitos dos comentários que recebeu foram de crítica de que, não fazia sentido queixar-se, que é uma privilegiada, que a escolha de 4 filhos ou de ser trabalhadora liberal era dela e que por isso não fazia sentido estar ali naquela lamuria. 

Na altura, comentei o seguinte:

"Um dia vamos ser uma comunidade de mães e pais que se apoiam. Que percebem que as realidades são todas diferentes umas das outras. Todas. Que todos fazemos escolhas diferentes. E que, temos tanto direito para nos queixar, apenas para a seguir continuar a fazer caminho. Deitar para fora faz bem. Faz bem à Sónia, faz bem a mim, faz bem a toda a gente. Torna-nos humanos mostrar a vulnerabilidade de cada um. Aceitá-la. Desejosa desses textos em vãos de escadas, a fazer o pino, a andar de bicicleta! A realidade da Sónia é diferente da minha e estou grata por essa partilha porque é possível retirar das suas aprendizagens aquilo que faz sentido no meu caminho. O resto pertence à Sónia.
Porque um dia, vamos ser uma comunidade de mães e pais que se apoiam.Independentemente, se têm empregada ou não, com bicicleta, carro ou triciclo, com avós/maridos/vizinhos a apoiar ou sozinhas. Abraço Sónia :)"

Esta semana vi este este vídeo da Megan Markl sobre a sua experiência na maternidade e como a simples pergunta de Como é que te estás a sentir? pode ter um impato importante na forma como nos vemos como mães e nos apoiamos. 

O vídeo foi postado na página poderosa da Rafaela Carvalho e para além dela, sigo mais um ou dois testemunhos de Mães, por coincidência (ou não) brasileiras e que abraçam a sua maternidade, abraçando a dos outros. São mães normais que partilham as suas fragilidades e conquistas, sem se sobrepor, nem vitimizar. A grande diferença de discurso e testemunhos que encontro aqui é menos julgamento e maior aceitação. 

Aceitação que há dias em que o leite vai entornar e o filho, vai com uma nódoa para a escola mas a sorrir. 

Aceitação que há dias em que em vez de uma sopa, conseguiu-se que comessem um pouco de verduras mas escolheu-se que o momento alto do dia era estarmos juntos ao jantar mais do que se recriminar porque não seguiu toda a tabela nutricional devida.

Aceitação que há dias em que não se conseguiu escovar o cabelo da filha e foi de toutiço mesmo, levou dois beijos bem dados nas bochechas antes de por a mochila nas costas. A recordação principal daquela manhã, foi o beijo da mãe. 

Aceitação que há dias em que se vai para a casa de banho, para o segundo banho do dia para chorar em paz, sem ser interrompida e mesmo assim, uma mão pequena vai bater na porta e diz: "Mãe, estás aí?"

Aceitação. Aceitar que em cada momento apenas fazemos o nosso melhor. Que o melhor de cada um tem a ver com a sua realidade, a sua história, o seu contexto. Menos julgamento, mais aceitação, mais abraços. Aceitar a sua realidade e a dos outros. Seja na maternidade ou em outra coisa qualquer. 

Porque um dia vamos ser uma comunidade de Mães e Pais que se apoiam.



Pais que Respiram
Porque (Em)Birras comigo? 
26 outubro - Sertã
29 novembro - Lisboa

Inscrições: abelpb@hotmail.com


A história

Das minhas maiores descobertas do ano passado foi ler e aplicar o chamado minimalismo. Não no sentido radical, nem de um dia para o outro (nem dava...com duas crianças em casa!) mas sei que é um processo, um caminho que pretendo continuar porque lhe encontro muitas vantagens. Esta nova área de interesse levou-me a conhecer, explorar novas pessoas e leituras de que irei falar mais para adiante. 

Hoje de manhã, caiu-me no colo mais um desses textos que não sendo novidade, encaixou muito bem. Há dias em que de tanto pedirmos, nos aparece à frente, o que precisamos de ouvir. Joshua Baker é um entendido nas matérias sobre viver de forma mais simples e genuína e escreveu um artigo sobre a história que contamos a nós mesmos. 


Não consigo emagrecer ou engordar, porque nunca soube fazer boas escolhas de comida. 
Não consigo deixar de fumar, eu já tentei e não deu.


E a lista não tem fim. O que me fez pensar em qual a minha história como mãe.

Que história estou a contar a mim mesma sobre ser mãe? 
Que mãe sou para o João e que mãe sou para a Maria?
Que mãe sou às 8h da manhã ou às 9h da noite?
Que mãe sou quando me fazem 20 perguntas ao mesmo tempo?
Que mãe sou quando não estou bem?
Que mãe sou quando estamos todos com pressa, quando me dizem que não querem comer ou quando me pedem cinquenta vezes a mesma coisa?

E que história é essa que me conto, depois de responder a estas perguntas, depois de os deixar na escola, de lhes ralhar, de ficar frustrada ou muito feliz? Que história é essa que me conto quando as coisas correm bem ou correm mal? 

A história vai mudando com o tempo e com a nossa fase de vida. Às vezes basta lermos mais alguma coisa, ou termos uma conversa com alguém que nos inspire para percebermos que afinal, a nossa história tem mudança possível. Outras vezes basta apenas parar. Só isso. Parar e respirar fuuuuundo. 

Vamos sempre a tempo de mudar a nossa história? Sim. Acredito profundamente nisso. Reajustando as expetativas, sendo mais generosos conosco e com quem nos rodeia. Introduzindo o que faz sentido nas nossas vidas de mães e pais. Em pequenos passos. Pensando e agindo. Pensando e agindo. Pensando e agindo. 

Por isso fica a pergunta.




Próximas ações:
Porque (Em)Birras comigo? - 26 outubro - Sertã
Pais que Respiram ... na Escola - 29 novembro - Lisboa.
Informações: abelpb@hotmail.com


Há um ano

Na véspera do meu aniversário, estava aterrada no sofá ao fim do dia. Miúdos deitados e por isso a aproveitar aqueles vinte minutos, em que ainda me mantenho acordada e com alguma lucidez. A Mia saltou para ao pé de mim e ficou a fitar. E eu fitei-a também. E nesse instante faço uma viagem de 365 dias. 

Há um ano não tinha uma gata em casa. Aliás, sempre disse que não iríamos ter animais porque ia dar mais trabalho, porque não cresci com animais e não sabia o que lhes fazer. Um ano depois, estava a alimentar uma gata de dias, com seringa de leite, na esperança de a manter viva. Aninhei-a ao colo para que ela pudesse sentir o calor, substituindo um início de vida sem mãe. 

Há um ano estava longe de imaginar que ia correr uma maratona. Mais, que ia arranjar forma de me preparar minimamente para uma, que ia sair do país para o fazer, que ia começar e atravessar a meta. Pelos meus dois pés. 42,195km. 

Há um ano tinha o sonho e a vontade de continuar a ir de mochila às costas com eles e irmos descobrir novos horizontes. Então um dia, lá fomos de novo. E o sorriso deles, compensa tudo o que é preciso poupar e fazer, para lá chegar. 

Há um ano tinha a vontade mas a pouca certeza de voltar ao yoga e muito menos à meditação. Ainda longe de fazer grandes acrobacias com o corpo ou com a mente, mas mais perto de respirar cada vez melhor. No yoga, nos dias e na meditação. É um caminho que tem tonalidades tão ricas, quantas as entregas que se queiram fazer. Com pessoas de luz que partilham deste caminho, guiadas pela mestre Sara e o sábio luminoso Tomás. Que caminho poderoso este e que descoberta que tem sido.

Há um ano queria voltar ao Pais que Respiram, aos encontros com quem quer insistir em ver uma outra forma de olhar o seu amor e entrega como mãe, como pai, como educador. Agora o verbo querer, conjuga-se no presente e o queria, transformou-se em vai acontecer. 

Há um ano estava longe de imaginar que amizades em suspenso voltaram a encontrar-se, por motivos tristes mas verdadeiros e cheios de amor. Descobri que a amizade e o amor, não se guiam por calendários ou relógios. Acontecem e vivem-se quando têm que ser, quando são precisos ou porque a força que os une, assim o faz acontecer. 

Há um ano atrás não imaginava que algumas pessoas iriam partir e isso dói. E na mesma proporção recebi notícias de que pequenos seres que estão para chegar e fizeram-me encher os olhos de alegria. São os balanços e ciclos.

Num ano cabem tantas vontades, tantos imprevistos. Haja um abraço para os receber e um coração grande para os guiar, naquela sabedoria que os anos vão trazendo. Estou grata aos 42, com todos os momentos doces e os outros. Os outros que fizeram crescer, puxar, quase desistir mas afinal vieram para ensinar. 
Venham os 43. 


Imagem da Skyla Design

É paixão - parte II

Dá um trabalho danado, não adormecer. 
Não adormecer no ritmo dos dias, nas suas rotinas, e turbulências.
Não adormecer porque a música é sempre a mesma, a que ouvimos por fora e a que cantamos por dentro, e que rima com medo, não sermos capazes ou com o adiar para uma altura melhor. A altura melhor, será sempre agora em vez do depois.
Não adormecer porque nos acostumamos ao de sempre.

O contrário é encontrar um despertador bem barulhento por dentro e dizer mais Sins do que Nãos. É insistir e voltar a remexer naquilo que nos põe um brilho no olhar e faz sorrir de nervoso miudinho só porque sabemos que faz parte de nós, a nossa verdade. E as nossas verdades só podem trazer sabores doces de amor, mesmo com os dissabores do momento. 

Duas ações que me deixam sempre com borboletas boas na barriga. Estão convidados com toda a entrega e amor. 
Abraço de sol. 
Até breve.

P.S.: Informações/inscrições - abelpb@hotmail.com







É paixão

A ideia era ter sido cozinheira. Mas lembro-me bem de ter chegado a casa e ter dito bem alto: "Quando for grande, quero ser cozinheira!" E me terem respondido: "Minha menina, se é para isso que vais estudar, tira já daí essa ideia!"

E foi com este pragmatismo que se foi uma carreira brilhante numa qualquer cozinha. Quer dizer, tenho a minha, com as minhas cobaias lá de casa e família simpática e amigos generosos que, de volta e meia, saboreiam o que se faz pelos tachos. Ainda ninguém faleceu repentinamente, nem ficou verde. 

Ainda veio a vontade de ser professora de línguas, até que um colega, o João, um dia se virou para mim e disse: "Tu tinhas jeito para ser psicóloga." Assim, sem mais, nem menos. Não sei se ele tivesse dito outra coisa qualquer como electricista ou jardineira, teria feito o mesmo efeito, julgo que, a bem da humanidade, não. A sugestão dele, ficou cá dentro e foi crescendo.

Hoje sei, que podemos estar tão bem, em vários trabalhos e felizmente, que o mundo se está a abrir um pouco por aí e já se vêm pessoas que escrevem e pintam, ou são jornalistas e cantam. 

Ter abraçado a psicologia como área de trabalho, tem aberto tantas portas há quase vinte anos, que me deu a oportunidade de estar no chão sentada com crianças de 3 anos a contar histórias, a passar dias de formação com escolas  ou a PSP, pelo país todo; a estar apenas com uma pessoa e um pacote de lenços ao pé, ou numa sala cheia de pais e mães emocionados; rir (muito) com os meus adolescentes e também lhes chamar a atenção quando é preciso, seja a prepararmos o almoço (novamente a comida) em conjunto ou a fazer arborismo (ainda tremo de pensar...). 

É um privilégio trabalhar com o Ser Humano, seja com que idade for e independentemente da sua condição ou estado. É estabelecer relação com o outro, ajudar a encontrar o que de melhor tem por dentro e depois deixar ir, para a seguir recomeçar com outro alguém. 

Ainda há tanto por fazer para que os psicólogos tenham voz, um papel ativo, que as pessoas tenham acesso aos seus serviços sem listas grandes de espera. Para que não se faça confusão sobre o que fazem e o que está ao seu alcance. E não, não andamos de vassoura por aí... Se bem que daria jeito, com o preço a que estão os combustíveis... 

Já disse que gosto muito, muito do meu trabalho, que é uma paixão boa, muito desafiante, e que fiz bem em ouvir o João e seguir Psicologia? 

No meu mês, hoje é o dia dos Psicólogos. 
Parabéns, a nós todos, que acreditamos e fazemos por isso. Parabéns a nós, e às pessoas com quem temos o privilégio de cruzar caminho, e que depositam o que de mais precioso têm dentro de si. 
Como se diz na minha terra, bem hajam ♥️