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Gavetas

Abriu-a com alguma rudeza. Percebeu dessa rudeza e parou um instante. Como é que era? Era para respirar. Respirou. Olhou-a de soslaio. Respirou. Percebeu-lhe as rugas, as falhas de polimento. Parecia desgastada pelo tempo, pelas mãos dos dias. Pela falta de cuidado, talvez até, algum desmazelo. 

Tirou-a para fora e virando-a do avesso, viu o seu corpo despido, nu. Vazio. Ficou a fitar. Passou-lhe as mãos. Sentiu-lhe os nós, os veios. Um cheiro um pouco perdido com o tempo mas ainda assim um cheiro próprio de ontem, de passado. Por momentos, pareceu-lhe também um salpico de fresco, de um possível amanhã. Não sabia. 

Virou-a de novo às direitas. Ficou para ali a olhar uns minutos, ou terão sido horas? Não sabia. Só sabia que era o seu tempo de a encher. Era uma gaveta que se esvaziou, para se encher da sua tristeza. Arrumou-a devagar. A tristeza tem de ser bem tratada, senão transforma-se num qualquer outro absurdo. A tristeza faz parte.  Não tem mal. Ás vezes demora uns minutos, outras vezes horas, outras ainda dias. Só não queria que ela tomasse corpo demais. Que lhe crescesse no peito e rebentasse por aí, disparando em todos os sentidos. Não queria. 

Então tirou esta gaveta que já lhe conhecia os dias, os queixumes e choros. Que sabia que iria tratar a tristeza como ela precisa de ser tratada, com tempo. Nesse compasso de tirar a tristeza de dentro, com as decepções, os cansaços, as faltas de vontade de dar mais passos, as frustrações, foi arrumando cada um dos elementos da tristeza nessa gaveta sábia que sabe que pouco adianta ficar assim por muito tempo. Deitou para fora, ali para dentro. A gaveta ajeitou-se. Prometeu guardar tudo até que nada daquilo lhe fizesse sentido. Arrumou a gaveta no lugar, com toda essa bagagem. Ainda olhou para trás quase com vontade de lhe pegar de novo e sentir aquilo tudo mais uma vez. Sabia que seria em vão. Uma vez arrumada pouco mais haveria a fazer. Tudo aquilo que lhe era cinzento, já não lhe pertencia, fazia agora parte de um universo paralelo, com o qual aprendeu a deixar ir. Com o tempo, aquela gaveta ia ficando vazia, até que já não houvesse mais tristeza para contar. E nessa altura, outras gavetas estariam para se abrir, por certo de cores mais vivas, com outro tipo de entusiasmo. 

Todas as gavetas fazem parte. 
Umas compõem os tons das outras. 
Cada uma delas com historias para esquecer ou ensinar. 






Os amigos imprevistos

Há fases de vida que de tão negras que são, nem cor têm. Tão raquiticas e maquiavélicas  que nem o arco-íris quer nada com elas! Ficam assim uma michelânia de tons cinza. Cinza claro, escuro, cinza assim-assim. E mesmo que se quisesse passar corrector ou uma borracha por cima, estão de tal maneira incrustadas que parece que nada as demove. Carracitas é o que são!

Parece... Mas depois entre um telefonema e outro, alguém inesperado e altamente imprevisto e improvável, respondendo aos agradecimentos feitos por nos tentar colorir o dia diz: "É para isso que a gente cá está." Fica-se a pensar que afinal há quem caminhe ao lado ou por nós. Os amigos, aqueles mesmo a sério e que se chegam à frente de peito cheio (sem implantes esquisitos) nestas fases cinzentonas, esses já naturalmente acompanham e são, sem dúvida fundamentais. Falo dos outros, os amigos imprevistos que nos surpreendem com uma tirada desta e que por nós caminham quando já não se aguenta avançar mais.

Tenho um exercício com a minha muito querida amiga T.T. (sim, Todo o Terreno, porque está lá nos altos e nos baixos!). Num espaço de um dia estarmos atentas a tudo o que possa ser um mimo ou uma pequena lufada de ar fresco, que leve a um sorriso ou bem-estar, e enviar uma à outra via sms. As variantes de partilha ficam ao critério de cada um mas faz olhar para os acontecimentos do dia com outros olhos. É experimentar que vale a pena.

Mesmo nos dias mais cinzentos e por mais turva que esteja a visão é possível ver as muitas cores que estão por baixo da tristeza e desilusão. É mesmo. Por isso mesmo é recorrer aos amigos à séria e aos imprevistos. E o resto...há-de correr bem.