À vassourada

Pegou na pequena mochila que tinha à mão. Meia dúzia de objetos lá para dentro. Tudo o que fosse o básico e o essencial: carteira, livro, caneta, preservativos, escova, rimel, agenda, telemóvel e ... bolachas e água. Tudo muito simples e básico.

Saiu. Bateu com a porta com aquela velocidade que permite ficar no limiar de um qualquer vidro partir. Só assim à beira do precipício do mundo do histerismo dos vidros. Esqueceu-se de desligar o pc. Queria lá bem saber. Que se amanhassem com a conta da electricidade, da contabilidade do mês que ficou por fazer, das plantas por regar, do café que ficou frio na chávena pronta a servir, dos relatórios por entregar, sempre urgentes e para ontem.

Saiu. Saiu sem destino, o vento a bater-lhe na cara, as primeiras chuvas a comporem o penteado, já por si, a anunciar uma revolução que estava em marcha. 

Desceu a avenida. Subiu a quelha. Contornou as duas igrejas por onde passava todos os dias. Meteu-se pela parte mais antiga da cidade. Andou até que se cansou dos pés, das mãos frias, das pernas a pedirem descanso. Andou até que o corpo lhe doesse tanto que a impedissem de pensar. 

Parou junto a um quiosque. Do lado de lá da estrada uma loja mais antiga ainda do que aquela parte da cidade e que tinha adiado para ver, um dia destes. Viu entrar e sair gente como quem pede ao tempo que se espreguice no ritmo da respiração. 

E viu vassouras. Muitas vassouras: grandes, pequenas, muito coloridas. Nunca viu tantas vassouras juntas. 

Era varre-los à vassourada!  - pensou.

E porque não? Da fama já não se livrava de louca-alucinada-pronta  atacar e refilar em qualquer altura. 

Levantou-se. As pernas a gemer e suplicar para que se deixasse estar. Os braços a empurrarem para trás, aproveitando a brisa mais forte que se fazia sentir naquela altura do ano. Estava determinada.

Varre-los à vassourada.

Esgravatou todos os cartões que tinha. Trocos, notas esquecidas nos bolsos. E foi. A D. Alzira, um pouco incrédula, ainda perguntou para que queria 23 vassouras. Todas as que tinha expostas e mais algumas do armazém. Limitou-se a sorrir e a pagar. Deu um beijo naquela bochecha com mais de seis décadas de histórias para contar e saiu, para espanto da pequenada que estava de regresso de mais um dia de escola. Seguiram-na até ao fim da ruela mas ela enxotou-os com um sorriso e umas ameaças de vassouras. 

Seguiu. Desta vez desceu a quelha e subiu a avenida. Imaginava a cara deles quando, um a um os empurrasse com a vassoura, porta a fora. Gente que não interessava. Subiu, cada um dos degraus com as 23 vassouras. Estava quase a bater à porta e olhou em volta. Ela e mais 23 vassouras. 

Percebeu então que não precisava de varrer gente que não interessava. Bastava varrer da sua mente, um a um para voarem para bem longe dali onde era o seu lugar de bem sorrir e ocupar-se com o que realmente interessava, pessoas-de-bem-querer. 
Pessoas de abraços sem pedir, que batem à porta sem mais nada mas que sabem a hora certa para ali entrarem. 
Pessoas que adivinham os dias e momentos de mal-querer e os transformam em momentos de ternura. 
Essas pessoas sim. 
As outras vão para as vassouras-que-as-pariu. 



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