Gostar de Gostar

Gosto do cheiro bom a pão fresco;
Gosto de dias de sol e estendais de roupa cheios com cheiros de amaciador;
Gosto de vê-los a brincar, a correr um à volta do outro, de caírem, voltarem a rebolar como se não houvesse amanhã;
Gosto de começar uma receita novinha e ver o que dali vai sair;
Gosto de enroscar-me no sofá, ver um filme, rodeada de lenços e mantas macias e ficar ali a mergulhar na história;
Gosto deste novo vaso que a minha mãe me deu;
Gosto dela…muito, e dos outros do meu sangue;
Gosto também daqueles que escolhi fazerem parte da família alargada mas tão próxima: as manas, manos e sobrinhos de ternura;
Gosto do verde, muito e desde sempre…o brotar da Natureza;
Gosto do meu trabalho, do que faço e crio, de trabalhar com a criançada, dos pretendentes-a-crescidos e dos já crescidos …ou nem por isso (!);
Gosto de ficar ali a esticar-me, puxar os limites do corpo e da alma e perceber a sua dimensão;
Gosto de um café bem tirado, mesmo não bebendo café…gosto que os outros gostem dele.
Gosto de …
Hoje gosto de Gostar. É urgente voltar a Gostar porque a vida surge e desaparece num sopro. Porque nos tiram ou querem tirar tudo e muito, mas o Gostar é Nosso. Ouviram? É Nosso.
E porque a última palavra não pode ser para eles (sejam eles que abutres forem…com todo o respeito para os animais), Gosto de Ti. Gosto de Nós.
E tu?

Síndrome do Todo-o-Poderoso

Há quem goste de misturar farinhas, açúcares e ovos e ver no que dá.
Há quem pegue em recortes de jornal, revistas, tesouras, réguas e papel e componha  arte.
Há ainda quem goste de escrever, esculpir, criar jardins dentro de vasos. Mexer em tintas, mudar móveis. Pegar em restos de tecido e inventar moda.
Há também quem invente brincadeiras e jogos. Surpresas para os outros.
CRIAR.






Felicidade em Promoção

É verdade que há crise…para alguns.
Que desemprego, salários piquenos, condições de trabalho precárias, exploração e aproveitamento da situação também há … para a maioria.
E o que resta? O que sobeja?
Neste ano de constantes desafios pessoais e profissionais, de autênticas acrobacias olímpicas (como é que ainda não se lembraram de uma modalidade tipo: salto em comprimento do ordenado de um mês para o outro) resta uma série de competências que têm sido uma mais valia…pelo menos para estes lados:
·         Criatividade;
·         Flexibilidade;
·         Improvisação;
·         …
Surge assim a ideia de Felicidade em Promoção. Tão fácil de esquecer coisas que nos colocam um sorriso no rosto ou um aconchego cá dentro…e tudo por menos de 1 euro ou grátis!
ü  Requisitar livros e DVD´s numa Biblioteca;
ü  Brincar;
ü  Namorar;
ü  Passear a pé;
ü  Observar filhos a brincar;
ü  Visitar alguém de quem se gosta;
ü  Dormir;
ü  Um bom banho;
ü  Um café com amigos;
ü  Organizar e ver fotografias;
ü  Banho no rio ou na praia mais perto;
ü  Uma refeição na varanda, terraço ou junto à janela;
ü  Enviar um postal ou um mimo a alguém de quem se gosta;
ü  Enviar sms a alguém que não está a espera…só porque sim, a desejar um Bom Dia.

Tudo isto parecem lugares comuns, coisas vulgares. Mas apercebi-me que me dedicava pouco à felicidade, que esta não pode depender de um contrato, de um recibo verde, da resposta de uma empresa ou banco. Que os malditos problemas vão continuar a persistir. Grandes, gigantes do tamanho da pessoa inteira, da alma e há dias que mais além, não deixando antever futuro, nem esperanças. Por isso essa vontade de fazer-lhes frente continua a persistir, nem que seja com listas simples de Felicidade em Promoção. Com o treino, ainda me arrisco a ser inspecionada pela Autoridade não sei das quantas para a fiscalização das Promoções…
E a vossa lista baratucha de Felicidade em Promoção?


As marés...e o hipnotismo

A onda vai. A onda vem. A onda vai. A onda vem. A onda vai. A onda vem. Já sente náuseas? Bom sinal. Significa que está hipnotizado e que dentro de 23 segundos e meio vai começar a cacarejar como uma galinha!

Destinos à parte, coisas místicas e cartas astrais e por aí fora, é curioso como às vezes os acontecimentos nos empurram para sítios para onde não imaginávamos parar. Por mero acaso está a trabalhar-se em áreas que não se contava, enquanto portas que sempre estiveram abertas e pareciam tão seguras, se fecham. Durante bastante tempo insiste-se em continuar a bater às mesmas portas, tunga, tunga, tunga e… Nada! Até parece que estamos a falar para o vazio, a parede ou um coelho (percebeu-se a subtileza da piada política-social-atual?).
Depois de muita insistência, de haver galos por tudo quanto é testa, sangue a esvair-se, lágrimas até, aceita-se e conforma-se que aquela porta fechou de vez. Não adianta. O curioso é que entretanto, muito tenuemente surgem sinais (que dava jeito que fosse do tamanho dos de trânsito…mas para isso o Universo ainda não está virado) de alternativas.
Então…para quê remar contra a maré, quando essa maré já se foi? É deixar ir na onda, na crista ou sem ela, mas deixar porque novos caminhos estão para ser descobertos. E isto tanto vale para as relações, para as profissões, para o trabalho sejam lá que mudanças forem. Às vezes  é assim. Deixar ir ao sabor da onda e ver o que ela traz.
20, 21, 22 … 23!!!! Toca a cacarejar!!!!



O Peso das Coisas

Era uma fatia triangular. De um chocolate vivo e brilhante. O creme, também ele de chocolate e de frutos silvestres, a escorrer pelo prato a fora, à procura de um espaço para se destacar, no meio daquela tentação doce, quase pecaminosa, a gritar em suplício para ser devorada.
Dá-se uma primeira trinca e mais outra. As seguintes, já em sufoco surdo, fizeram desaparecer aquele pedaço de mau exemplo às boas regras de nutrição.
Fala-se, escreve-se e publica-se muito sobre comida: blogues, programas, medicamentos, tratamentos e afins, a comida é esmiuçada até mais não. Quase até às partículas ínfimas de um átomo.  E se elas são pequenas! Fazem-se muitos sacrifícios, em prole de uma vida saudável porque hoje as tentações são mais do que muitas e ao virar de cada supermercado, pastelaria ou loja de comércio alimentar. Longe vão os tempos onde apenas se estava rodeado de árvores de fruto e umas quantas hortas. Agora está tudo tão à mão (e quem se terá lembrado de colocar à venda pastéis de nata e outras delícias da pastelaria, mesmo ali perto das caixas de pagamento?!?!) que  é muito mais difícil de resistir.
E aguenta-se, aguenta-se muito para um corpo mais são. Ainda bem. Mas também se coloca muito peso nas coisas. “Ai que respirei o ar desta tarte e estou a engordar!” A comida acaba por ser comida mas a culpa é tão grande que todo o encanto natural de se ter algo genuinamente bom à nossa frente, desaparece. Nesse dia, para além de calorias a mais, também se ingeriu, ressentimento, culpa, desvalorização…tudo o que tira a graça a algo tão simples como é comer, saborear.
Que seja uma vez por outra, que o pecado da gula entre pela goela adentro, mas se for para pecar, que se peque em consciência, se entenda que é um ato isolado, e que comido com prazer alimenta partes nossas que não o corpo. Como tudo, feito com parcimónia, na medida certa, só pode fazer bem. Os malditos pesos de consciência, sejam sobre a comida ou outras maleitas qualquer, atormentam feitos abutres o nosso equilíbrio e bem-estar. Por isso há que dar-lhes o devido peso, sem exagerar.
Toda esta conversa deu cá uma fome…com juizinho mas com vontade!

E quando um estranho se aproxima...

Devia ter perto dos 5 a 6 anos e já achava muita graça às experiências com os outros, ver-lhes as reações. Por essa idade era frequente, quando andava na rua, virar-se para as pessoas que passavam no passeio e do nada dizer apenas: “Bom Dia!”, com sorriso discreto mas sincero, as respostas, um pouco surpreendidas não se faziam esperar e quase sempre, entre um murmurar e outro, o sorriso e a saudação eram devolvidas.
Ainda hoje, a “experiência sociológica” persiste em contextos mais elaborados: nos correios, repartições de finanças…seja onde for, de vez em quando sai um Bom Dia com sorriso e as respostas aparecem.
Acontece por vezes, quando se tem que tratar de assuntos chatos e piolhosos, pegar-se no telefone e no fim da conversa ficar-se com a sensação boa de se ter sido bem atendido. Alguém, anónimo, decidiu naquele momento fazer-lhe o que lhe competia profissionalmente mas ir um pouco mais além e ser gente.
O desafio está aí. Ser-se gente para quem não se conheça: seja com Bom Dia, seja cedendo um lugar, elogiando uma peça de roupa, seja lá o que for… fazer bem a alguém que não se conheça.
Utopia ou não, acreditar que o bem anónimo faz bem e se multiplica a partir daí, traz mais de volta do que aquilo que em dez segundos se dá. A experiência na maior parte dos casos vale a pena, a sensação de bem-estar também.
E se o dia tem 86400 segundos (acabei de fazer a conta na máquina!), o que são 10 segundos?!
Por isso, quem sabe, se um dia destes, não nos cruzamos por aí, e sem combinar nada, sai um Bom Dia, com direito a sorriso e tudo J



Ficar estrábico-no-bom-sentido

“Senhores Passageiros é favor apertarem os cintos. A viagem com destino ao Rio de Janeiro inicia-se dentro de momentos.”
Sem mais, os pés perdem o chão. Olha-se pela janela e lá fora as casas transformam-se em pontos minúsculos e os campos compõem uma manta de retalhos. Aquilo que parecia gigantesco há uns segundos atrás, passa a pertencer a um qualquer mapa de escala reduzida. Faz tudo parte de uma escala global em que se muda de perspetiva.
Às vezes de tão centrados nos problemas, esquece-se da mudança de perspetiva. O drama da perda de um grande amor aos 6 anos é tão grande como aos 25…a diferença, talvez esteja na memória dos acontecimentos! É que aos 6 há sempre o outro vizinho da frente que afinal é mais giro! Simplifica-se. O que não significa que não se tenha chorado, sofrido, entristecido até mais não… apenas aos 25 anos isso já parece tudo muito longe.
Aquilo que agora parece consumir as entranhas, daqui a uns tempos já não terá o mesmo peso. Quando se lá está centrado e consumido não se vê mais nada. Há assim uma espécie de cegueira momentânea. Por isso o “levantar voo” ajuda tanto…lá de cima o problema fica minúsculo e vê-se o quadro geral.
Seja lá de que forma for, ficar estrábico-no-bom-sentido, é uma vantagem. Mudar a perspetiva, perceber que há vida para além de Marte ou outro planeta qualquer. Por isso façam o favor de trocar os olhos, revirá-los, entortá-los.
Mudança de perspetiva. Ver as coisas sob um outro ângulo.