As coisas que assustam

As coisas assustam.

Aventurar-se a ser si próprio assusta mal se põe a cabeça cá fora. "Tem a personalidade muito forte, está cheio de manhas... não lhe faças as vontades todas!" E vamo-nos assustando da nossa força, das forças dos que nos rodeiam e a moldagem acontece.

Depois cresce-se e continua a ser assustador ser-se ou não aceite. Seja pelas roupas, pelas falas e conversas certas. Será que estou ou não no grupo? Será que ele ou ela gostam de mim? E se eu digo um disparate e lá se foi o tempo de investimento, de cartas trocadas, mensagens, olhares?

Assusta, ser-se como é porque no caminho às vezes perdemo-nos nas voltas, nas distracções das relações, no trabalho.

Continua-se a caminhar e surgem obstáculos (ou serão desafios?) e a cada momento, em cada encruzilhada há questões por resolver. Porque nos tropeções dos dias, das aventuras e principalmente nas desventuras e desamores há tanto por descobrir. "Porquê a mim? Porquê eu?" Perguntam tantos. Perguntamo-nos todos.

Nas voltas e contracurvas há que ser honesto e apenas parar à beira da estrada e perguntar... as coisas que nos assustam. Os medos, tantos que se lhes perde o conto e a razão.

"There are more scary things inside, than outside." - Paradise

Os medos que nos toldam e não nos deixam gritar a plenos pulmões quem somos, quem queremos ser, quem Merecemos ser. Ser-se honesto consigo e por isso um pouco mais com os outros.

As coisas que nos assustam, são também, aquelas que nos deixam mais perto de quem realmente somos.

Para ver. Para pensar. Nesta dimensão da diversidade, que terá tantas valências quantas as quisermos dar. Para ver Aqui. 










Seus camelos

Eu não sou uma mercadoria.
Se fosse num qualquer país distante, talvez fosse vendida por alguns camelos. Não sei... já não tenho todos os dentes de origem e não sei se isso faz baixar a cotação no mercado camelário. Por isso, para já, e num futuro distante, não vejo camelos à vista... de 4 patas.

Eu não sou uma mercadoria porque me faz comichão, e muita, com a falta de interesse com que um caixote é tratado: precisa-se, usa-se eeeeee, fica a um canto à espera de novo e espetacular reconhecimento. E isso é coisa para incomodar. "Ah e tal preciso deste abajur mas...ah, temos peninha, já não dá jeito."

Ser mercadoria com qualidade é saber-se usado mas com direitos: datas e tempos de utilização, tipo de embalamento, expedição urgente ou não. E então se for registado, upa, upa!

Que se compreenda de uma vez, que as pessoas, ou os people, ou menschen, são muito mais importantes que os papéis, sistemas binários, gráficos ou balancetes. As pessoas comem, respiram, têm as suas contas e responsabilidades.

As p-e-s-s-o-a-s sentem. Gostam de ser tratadas com respeito, senhores! 
Por favor, de uma vez por todas, tratem as pessoas com dignidade, seus camelos! 
(Nota: refere-se nesta alusão aos camelos de 2 patas, não se querendo, de forma alguma, ofender os outros que nem sonham que andam a sevir de moeda de troca)

E isto tudo, foi-me dito, em jeito de desabafo, pelo António enquanto víamos um documentário sobre camelos, agora os outros, os das bossas. 

Que grandessíssimos camelos! 



Balançar

Sou do signo balança e isso talvez aqui seja o menos importante. 

O mês de dezembro tem uma velocidade incrível. Muita gente gosta destes trinta e um dias, onde o frio já vai apertando e onde a par do conforto de camisolas e casacos mais quentes, de uma ou outra forma, se aconchega ou procura aconchego da alma, nesta coisa do natal.

O mês de dezembro tem uma velocidade incrível. Trinta dias onde se procura condensar famílias que tenham que estar absolutamente felizes, quando o ano inteiro foram, apenas, famílias normais, sem estarem sempre a sorrir, a sentir o coração a explodir de alegria. 

O mês de dezembro tem uma velocidade incrível. Vinte e nove dias para se sentir uma fé e uma esperança renovada, logo abandonada, lá para o dia 6 ou 7 de janeiro quando, depois de muito evitar, nos colocamos em cima de uma balança que não mente. Ou as calças. Uma enormidade de otimismo depois pouco alimentado durante o resto do ano. 

O mês de dezembro tem uma velocidade incrível. Vinte e oito dias em que se compra, embrulha, e se enlouquece com a lista de coisas para fazer entre bacalhaus, perús, rabanadas, laços, fitas e cabazes. 

E os dias continuam, vinte e sete, vinte e seis...

O mês de dezembro tem uma velocidade incrível. A que lhe impomos. A que se quiser dar. Um mês com uma energia muito, muito própria. Sente-se no ar uma espécie de euforia coletiva. Que é boa, seja ela conduzida para aquilo que fizer a cada um, realmente feliz. Parar. Perguntar: como quero que seja realmente o meu mês de dezembro. 

Por isso estava para aqui a pensar, que sendo do signo balança, me vou inspirar na palavra balançar. Fazer o balançar do que quero para este mês. E o que quero e faz sentido para todos os outros meses que aí vem. Compreender que em cada mês há um novo natal, uma nova luz, um novo recomeço. Todos os meses. Todos os santos dias. Sendo ano novo tanto em fevereiro, como em pleno mês de agosto.

Mês de dezembro...para balançar.

P.S.: Partilha - e quando a seguir a este texto, inicio pesquisa de imagem, aparece esta música que se chama Balançar, que eu nunca tinha ouvido, que eu não conhecia e que a Mafalda Veiga e o Tiago Bettencourt já cantam. Bonito esta coisa de seres humanos diferentes, sentirem coisas tão semelhantes :) Fica a sugestão.



Créditos de Imagem: Revoada 

Insónia






Dava voltas na cama. Passados três quartos de hora resolve acender a luz, ligar o computador e vomitar, através da escrita. 


Às vezes levamos para a cama, não apenas sono ou um bom companheiro. Às vezes levamos connosco meio mundo, que fico por ali sentado, a olhar, a mordiscar-nos a paciência, as orelhas, as chatices, a picar. Coisas do dia a dia, normalmente, quase sempre, coisas chatas, achatadas e indrominadas Coisas que nos tiram o sono e que insiste em não desligar. Revêm-se episódios, histórias mal resolvidas das muitas horas do dia, ou de dias anteriores. Frases ditas, malditas que se ouviram, ou que ficaram por dizer. Quantas vezes, só depois de se bater com a porta é que sai aquela frase que lhe encaixava maravilhosamente, que nem um estalo, a alta velocidade? 

Continua-se a escrever, a vomitar. A luz acesa ajuda a que os pensamentos sosseguem mais um pouco. O cansaço vai-se instalando. Fazem-se contas de quantas horas faltam para o maldito despertador voltar a tocar. O ciclo recomeça e enviam-se pragas aos demónios, responsáveis por estarmos acordados a horas tão tardias. 

Os olhos a quererem fechar. Sentimento de injustiça continua por lá e estes voltam-se a abrir num ápice.

Lembra-se então, da película de um filme. Das muitas, muitas sequências de imagens que lhe dão vida. Assim como as preocupações de uma insónia. Dar a dimensão aos demónios como eles a merecem: ridiculamente pequena. Um instante de imagem, comparada com toda a longa metragem que já lá vai e com toda aquela que ainda está para vir. E que venha.

Daqui a pouco, o relógio toca. Já vomitei. O resto, os demónios, terão um destino tal qual como o vómito: sanita abaixo. E agora desculpem, vou puxar o autoclismo, apagar a luz...e dormir. Bons sonhos.

P.S.: E descobrem-se coisas boas como esta iniciativa até ao dia 6 deste mês. Toca a Todos 

Estradas de alcatrão...ou não


A Nanda não sabia bem como, mas estava sempre a acontecer-lhe: enfiava-se num caminho que tinha a certeza que era o certo e a meio, virava à esquerda quando era para ir para a direita, o cruzamento tão familiar nunca mais aparecia, e aquela reta grande, antes mesmo de chegar ao destino, hoje, logo hoje, não apareceu. Voltas e mais voltas, com mais ou menos tempo, e porque tinha mesmo de lá chegar, o destino lá lhe dava um empurrão e mesmo em cima da hora, conseguia aparecer  em todo lado.
 
O que a Nanda também sabia era que seguir as indicações dos outros também não funcionava lá muito bem. Quantas vezes fez o percurso que o seu irmão mais novo, um perito na condução lhe sugeriu, e o engano não foi pior, foi muito pior. Dava-se ela lá conta de tomar conta e atenção aos pontos de referência "olha bem para lojas, antenas de telecomunicações, casas, quartel dos bombeiros...tudo serve!" Está bem, está... A Nanda gostava de olhar para as pessoas que passavam na rua e sobre as quais construía histórias. Essas, não ficavam quietas e paradas no lugar, de nada serviam como pontos de referência. E gostava das árvores grandes sempre a mudar a cor das folhas, de roupagem.
 
Também ofereceram à Nanda, uma maquineta, gerigonça nova que cuspia coisas maravilhosas como "Vira à esquerda a seguir ao nono cruzamento, contorne a rotunda e saia na 18º saída..." Mas para além dos erros que estas falas falantes também cometiam (de início ria-se muito, muito porque chegavam a errar ainda mais do que ela... e por isso foi parar a uma típica paderia de bairro e o que se riu ela e a senhora quando lhe perguntou "Vende meias?!" "Só se for as de leite, menina!") significava que todos os que quisessem ir para um determinado destino, e partindo do mesmo ponto, fariam exatamente o mesmo caminho.
 
Isso não podia agradar menos à Nanda. E onde ficava a aventura? Os erros, a maravilha de errar, de por vezes doer muito na despesa do carro e na emocional, para logo em seguida, e quando já se sentia em pânico, por mais uma reunião, um encontro de amor, de amizade adiado porque se perdera nas voltas daquela viagem, descobrir que afinal, tinha chegado ao Seu destino.
 
E tudo isto é tão verdade nas voltas e desencontros dos caminhos de estrada de alcatrão, como na vida. A Nanda sabe. Ora lê lá outra vez.
 
 
 
 
 
 
 

Quero muito e tanto

Hoje cheguei a casa e a minha amiga Alice, deixou-me o seguinte desabafo escrito:

"Quero rir mais. Muito mais.

Quero dizer que sim mais vezes. Dizemos poucas vezes que sim ao que gostamos.

Quero abraçar ainda mais.

Quero apenas ficar a ouvir...nada.

Quero ficar em silêncio e escutar o que vai cá dentro.

Quero ficar por ali a dormir, saborear cada momento de descanso.

Quero parar o relógio, mesmo que ele esteja em movimento e sentir cada momento, sem saudade porque o senti em pleno.

Quero sonhar muito e muito alto. Sem cair, sem exageros. Porque os sonhos não sofrem de limite de velocidade nem de vertigens.

Quero dizer que não, sempre que o corpo e a alma se queixe. Porque é demais, já chega ou o limite foi alcançado.

Quero apenas e unicamente ser feliz. Não amanhã, nem depois. Sê-lo apenas agora, mesmo que haja quem diga que "Um dia quando... " ou " Quando eu... ". Chegam os Se´s.

Quero apenas ter a lucidez suficiente para decidir o que é o melhor a cada momento. Sem medo do que virá. "

E fiquei para ali a pensar, no que também eu queria...

Créditos de imagem: Quadro de Joana Lopes

Pirata de coroa -Princesa de pala



E foi tudo para o lixo

Era a lista para as compras.
Lista para as atividades dos miúdos: ballet, Karate, mandarim, como fazer um pudim, ciclismo, malabarismo.
O caderno da lista doméstica: trocar as roupas da estação do ano (ainda existem?), limpar os sapatos, os atacadores, arrumar os livros e pergaminhos da estante que eram da avó. A gaveta do frigorífico e a tábua de cortar a carne. Desinfetar e arrumar. Limpar os wc´s com o detergente azul, a cozinha com o verde. 
Faltava outro caderno da lista do trabalho: marcar 4 reuniões, mandar vir os materiais para as maquetas novas, responder aos últimos 30 mail´s, atualizar o estado no facebook profissional e fazer o pino,  a cada 45 minutos para ativar a circulação sanguínea e incrementar mais ideias.
E ainda a lista da família: tratar do bolo de anos da tia Alzirinha, a prenda da sobrinha mais nova e imprimir as fotos do último Verão em Mira.

Havia claro, uma lista que coordenava todas estas listas. De forma a que tudo batesse certo, não fosse o universo parar de respirar.

Naquele dia, entre muitos post-it de várias cores florescentes diferentes, o quadro de registo desmoronou-se no chão. Ou teria sido ela? 

Os muitos afazeres fugiram das folhas, das listas, das enormes listas e apanhando a janela aberta, fugiram por entre a fresta e lançaram-se no espaço. Literalmente voo tudo para o espaço. Foi-se. Trabalho de horas, raciocínios complexos de tentar encaixar tudo. Foi-se. 

Como fazer, viver ou respirar... sem as listas?

Olhou então para o que tinha ficado em cima da mesa de trabalho, na parede e no quadro de tarefas. Nada. Um vazio. Ou o vazio seria dentro dela?

Pegou num lápis, fechou os olhos. Respirou. Uma, duas, três, quatro vezes. Respirou de novo. Uma, duas, três, quatro vezes. Respirou mais uma vez. Uma, duas, três, quatro vezes. Olhou de novo para as folhas, para as listas, agora vazias. E começou a desenhar, a escrever, o que realmente era importante naquele dia:

  • Sorrir, para dentro. Para fora. Para mim. Para os outros.
  • Rir...pelo menos uma vez, com imensa vontade. Criar situações de riso.
  • Abraçar, mais.
  • Brincar. Atirar-me para o chão, pegar em carros, bonecas, na consola...brincar com eles.
  • Sentir-me grata. Abençoada. 
  • Deixar de listar tanto. Viver.
  • Estar consciente do presente. Do agora. 
E foi assim, que tudo o resto foi para o lixo.


imagem daqui - We Blog You