Há praias

Há praias maravilhosas em que se sabe que um bom dia de sol vem aí. A temperatura da água morninha em que não custa a entrar. Um areal extenso. O tipo de ondulação certo, que convida ao banho, onde é possível nadar, quase como numa piscina fechada, apenas ... muito melhor. Se num dos dias não se aproveitar tanto o mar, não faz mal. No dia a seguir, mais coisa, menos coisa, vai lá estar o mesmo cenário. Raramente varia. Não se tem muita a sensação de tempo perdido porque quando se perde um momento, logo e facilmente é reposto por outro. E num dos dias até se fica a dormir até mais tarde e já só se vai à tarde, e no outro dia, prolonga-se o almoço e fica apenas aquele passeio de fim de tarde porque afinal, há sempre o amanhã... 

Há depois as outras. Praias em que, apesar de se consultar o boletim de metereologia, a praia é caprichosa. E se a poucos quilómetros está um céu limpo e rasgado pelo sol, ao nos aproximarmos, vê-se um denso manto de nevoeiro. Há dias em que se fica até bem perto do anoitecer, aproveitando um calor pouco habitual para aquela tarde de entardecer, e outros, em que só de casaco vestido e com alguma resistência psicológica, se vai por ali ficando. Banhos, às vezes. Raramente se vêm bandeiras verdes, e isto sem qualquer preferência clubística. Apenas... por ali impera o vermelho. Quanto muito o amarelo e à cautela. Os nadadores salvadores andam num rodopio. Nunca se percebe bem o que vai acontecer, por isso, aproveita-se bem o que há a cada instante. Se está bom tempo, fica-se porque amanhã, nunca se sabe.

Andar por estas praias faz-nos pensar mais no presente. Obrigatoriamente aproveita-se o que há, e isto se se quer ter algum proveito de banhos de sol, de mar e com sorte algum calor. São também muito autênticas. Mostram o vigor, são frontais, têm caprichos. 

Às vezes apetece praias mornas. Outras vezes, praias desbravadas em que se ouvem as ondas, em que se tenta superá-las, fintá-las até, para se tirar algum proveito. Põe-nos à prova e a nossa capacidade de nos adaptarmos aquilo que são capazes de dar. Tal como a vida. Vivendo o presente.









Sementes

Escreveu. Uma e outra vez. 
Voltou a escrever, a fazer listas e tabelas , a completá-las com imagens. Uma e outra vez.
Esqueceu-se mas voltou a fazê-lo. Mais uma e outra vez.
E de cada vez que o fez, era energia renovada. Umas vezes a acreditar mais, outras vezes menos, ao sabor dos dias e dos pensamentos. Mas, uma e outra vez.

A verdade é esta. Faça-se um bom plano. Reveja-se esse plano, vezes e vezes sem conta. Uma e outra vez. A cores, a preto e branco, pintado, salpicado de risos e choros. Uma e outra vez. A verdade é que quando se semeia, uma e outra vez, algo nasce. De uma e outra forma, quando a vontade é muita, quando quase se desiste, e aí se insiste, uma e outra vez, algo acontece. Pode não ser na medida da vontade inicial, mas algo conspira para que algo se inicie. Como uma roda gigante que se colocou a funcionar, há muito tempo atrás, quando a primeira semente caiu à terra. 

Cuidar dessa vontade, ciclicamente, quase diariamente vem de uma vontade grande e no continuar a acreditar. Uma e outra vez. Porque imagine-se uma semente que não é cuidada... Que se reguem as vontades, se adubem as ideias de coração e de alma.

E eu sei, estou a repetir-me, uma e outra vez, mas é que só assim é que a coisa vai lá.

E isto para tudo, para os sonhos de coração, para os de paixão de trabalhar, paixão de viver. 




A Graça do Universo

Há um excerto do livro de Comer, Orar e Amar (pág. 160 - 161), de Elizabeth Gilbert que diz mais ou menos isto:

"Talvez o Richard do Texas não pareça um iogue típico, embora o tempo que passei na Índia me tenha ensinado que é difícil dizer o que isso é. (Basta pensar no produtor de leite da Irlanda que aqui conheci no outro dia ou na antiga freira da África do Sul). O Richard veio para este centro de ioga através de uma ex-namorada, que o levou do Texas ao ashram em Nova Iorque para ouvir a guru falar. Richard diz:
- Achei que o ashram era a coisa mais estranha que alguma vez vira e comecei a perguntar-me onde é que seria a sala onde teríamos de entregar todo o nosso dinheiro e os documentos da nossa casa e carro, mas isso nunca aconteceu...

Depois dessa experiência, que tinha sido há cerca de dez anos, o Richard deu por ele a rezar a toda a hora. A sua oração era sempre a mesma. Estava sempre a pedir a Deus. Por favor, por favor, por favor, por favor abre o meu coração. Era só isso que ele queria - um coração aberto. E acabava sempre a prece pelo coração aberto pedindo a Deus:
- E por favor manda-me um sinal quando isso tiver acontecido.

Agora, ao recordar esse tempo, diz:
- Tem cuidado com o que pedes, Mercearias, porque podes recebê-lo.
Após alguns meses a orar constantemente por um coração aberto, o que pensam que o Richard recebeu? Isso mesmo - uma cirurgia de peito aberto ao coração."

A história, baseada na realidade, não deixa de ter uma certa graça. A graça que o Universo tem:
- quero ter mais tempo para os miúdos ...e fica-se desempregado;
- apetecia-me ficar todo o dia na cama ...e parte uma perna;
- não tenho tempo para ir correr, fazer caminhadas, entrar para o ginásio ... e é despromovido.

Quase que parece um síndrome qualquer de bumerangue, pede-se, deseja-se e acontece. Normalmente um pouco fora dos nossos planos, formas de estar, nem sempre no tempo que pensamos que seria adequado e por vezes em circunstâncias que não parecem as ideais. Nunca o são.  Mas acontece. E volta-se a questionar tudo, a definir prioridades. 

A verdade também é que realmente tem a sua graça. Aceitar aquilo que se deseja da melhor forma possível porque a preparação vem com o caminho, com o desafio aceite. Os pormenores que embelezam e que estavam tão bem dentro de nós como um filme em que tudo acaba por correr bem, esses, os pequenos, grandes pormenores vêm com o tempo, com dedicação e entrega. E traçar um plano, A, B, C, o que se queira, mas um plano diário, semanal, mensal que nos prepare, deixando em aberto, para a graça do Universo.




Ciclos e as voltas da vida

Há fases sem paletes de cor organizadas. As cores misturam-se todas. A tela fica densa, sem forma, nem feitios. O chão desaparece mesmo por baixo dos pés. São fases que não deixam saudade na sua generalidade. Retira-se tudo o que há para aprender, até ao último acontecimento para que não tenha sido em vão o que por lá se viveu. Ficam sobretudo as pessoas de verdade, as que ficaram ali de pé, mesmo ao lado. As experiências diferentes. A certeza de se ter feito o melhor com o que era possível de se ter feito na altura. Mas sem vontade de lá voltar. 

Há quem diga que não se arrepende de nada. Está no seu direito. Não concordo. Arrependo-me de tempo perdido quando não se definem bem as prioridades. De se investir, sem o mínimo de retorno. Tudo é aprendizagem, é verdade, mas às vezes o preço é demasiado alto. Tempo de vida não tem preço. Por isso, com as marcas dos acontecimentos avança-se em busca de algo melhor e mais pleno.

A vida é cíclica. Ou por fases, ou episódios. Ao gosto e vontade do freguês. Hoje encerra-se um ciclo por aqui. E fico feliz por isso. Muito. Com orgulho fecha-se um ciclo em que se saiu da zona de conforto, em que se foi ver como era, e não se ficou para contar como seria. E há muitos, muitos (demasiados meses) atrás, pensei neste dia. E tudo tem o seu tempo de acontecer. 

Se faria tudo de novo? Não. Tenho a certeza que não. Porque aprendi a importância das prioridades. A experiência que marca e que nos faz crescer, evoluir, sermos melhores para conosco. Este cíclo que se fecha, que se enterra para sempre, deixa assim lugar para algo novo. Algo fresco, que pulse energia. Porque felizmente, tudo tem um fim. Até os cíclos menos bons. Hoje encerra-se um ciclo. Ponto Final. E a seguir, as escolhas são tantas, quantas as forças aguentem e a alma queira. Afinal, o melhor está sempre para vir. Basta acreditar, e hoje acredito mais.





Ar fresco

Há alturas em que fica tudo denso. Não há luzes, nem boias de salvação que nos valham. Perde-se o norte, os objetivos. Perde-se as perspetiva de saber que os dias cinzentos aparecem e tão depressa aparecem, como não vão durar até sempre.

Há dias e momentos assim. Persistir nessas alturas é um exercício necessário, nem sempre bem conseguido porque é fácil acreditar quando tudo está bem. E tão, tão difícil de o fazer quando tudo à volta se encolhe. Há dias e momentos assim.

E este persistir é agarrar ao que se pode. Chamo-lhe portos de abrigo. Portos de abrigo de amigos. De gente que nos quer bem. Gente que acredita em nós quando nós não o fazemos. Lugares, onde já fomos felizes e nos transportam para esses momentos de bem-estar. E nós próprios. Em que, não esquecendo quem somos, recordamos as muitas batalhas já travadas e voltamos a esse lugar seguro de que no fim, de uma ou outra forma, feito o esforço individual, tudo vai acabar bem. Porque se persiste, insiste e continua-se a dizer que para a frente é o caminho. Mesmo que se tenha que parar.

E às vezes, muitas vezes, há uma lufada de ar fresco. Que não se percebia que fazia falta. Seja pela forma de uma pessoa ou um acontecimento. Em jeito de resposta, da vida, do universo, da nossa pessoa do futuro nos dizer: Vês...continua, que chegas lá. 

Ar fresco. Às vezes, só precisamos disso. E a seguir é fazermo-nos à estrada para mais uma aventura de cada dia. Porque um dia, no futuro, vou fazer uma aventura assim. Mais ou menos radical, as aventuras fazem falta. Até lá, lufada de ar fresco.


 





Olhares


Entraram no comboio. Para Ela, era a viagem 2643. Para Ele, uma aventura. Sentaram-se nuns lugares normais. Ele achou-os extraordinários. Ficou do lado da janela. Olhos muito abertos. A mente ainda mais. As cores de uma luminosidade tornada ainda mais viva por ser Verão. Junto ao Tejo. 

O fascínio de uma grua, dos barcos. Das muitas pessoas. Ela, largou o livro que vinha a ler. Arrumou-o na mala. E começou a contemplar pelos olhos D´Ele. Os pormenores. Muitos, salpicados à medida que a viagem decorria em ritmo compassado, à vontade da carruagem e da máquina de ferro. E lembrou-se que se tinha esquecido de Olhar. Tudo de novo. Como só uma criança sabe fazer. Ela deveria ter 21, Ele pelos 12. 

E o que recorda dessa tarde de passeio, dessa partilha de irmãos, foi essa aprendizagem boa que só as crianças nos ensinam, em que tudo é possível, o Mundo uma aventura e descoberta. Há outro encanto em tudo o que se faz, toca e descobre. E está-lhe grata. De volta e meia recorda esta história. Porque de volta e meia é preciso descobrir aventuras nos dias. E em que as crianças são especialistas. 

Mesmo em dias de chuva como os de agora. Tal como este vídeo que vos deixo.






P.S.: Boas aventuras novas meu irmão. Que mantenhas essa enorme capacidade de olhar, tal como naquela viagem de comboio <3. 

Uma folha e uma caneta.

Põe a mão na mala. Nada.
Volta a mexer. Nada.
Um ligeiro pensamento de pânico miúdo trespassa-lhe a mente: "E se...".
Novamente vasculha tudo entre bolachas, agenda, lenços, chaves. Nada MESMO.

Pensa como é que vai recuperar o telemóvel que acaba de deixar em casa dos amigos? Amigos estes que se mudaram agora de casa, por isso, não sabe movimentar-se nesta grande cidade para ir lá ter. Foi ele, que simpaticamente a deixou à porta da clínica onde ia ter consulta, logo a seguir ao almoço.
Nada.

A história acaba por correr bem. Lá se lembra do único número de contacto que sabia de cor (a casa dos pais!), amigos em comum, e pediu-lhes o contacto deles. Recorreu a uma cabine telefónica (será que ainda existe? funciona?) e conseguiu.

E enquanto se dirigia para o local de encontro, com hora marcada (que não havia telemóvel para outras combinações ou desmarcações) pensou naquele dia, cheio de percalços. Nos porquês, nos sobressaltos e desvios de um dia, que tinha começado, já por si, de forma tão atribulada.

E às vezes não há explicações. Às vezes aceita-se o descontrolo do dia, imprevistos e tira-se o melhor partido dele. A espera. Sem sms, sem agenda eletrónica.

Apenas a conversa com um senhor na paragem de autocarro a precisar de orientações.

Apenas esta folha e caneta. Este novo texto. E este sol, tão bom.

Deixar o descontrolo das situações ocorrerem porque nada mais há a fazer. O telemóvel vem a caminho.

Neste silêncio, que até sabe bem, até o olhar estranho de quem passa e não percebe o que é que aqui se passa: parada no passeio a escrever. E apenas esta folha e caneta. Simples.