A chapada

Veio em alta velocidade. Nem deu por ela. Acentou na cara, ficou vermelha a escaldar. E ouviu-se um estrondo, grande, ruidoso. Provavelmente até ao outro lado do mundo. A chapada. Veio sem aviso.

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Ia a duzentos, mil, talvez até dois mil. Ia com muita coisa, muita coisa para fazer, pensar. Uma lista imensa de coisas importantíssimas que não podiam esperar nem mais um segundo. Que eram de uma urgência urgente. Sem falhas, nem interrupções. Conseguiu ir aos CTT enviar mais uns projectos. Urgentes de uma urgência rápida. Virou-se. E foi aí que a levou. Uma chapada imensa, brutal. 

"- Olá Luís! Estás bom?
Era a Alice. A Alice com todo o seu esplendor, sorriso orelha a orelha, como se nada fosse. Como se tudo fosse normalmente banal. 

"- Sim! Tudo! - como atrever-me-ia eu a queixar. "Mas e tu, conta-me. Como estás?"

E esteve para ali a conversar, esquecido do tempo, das urgências urgentes, das reuniões, dos prazos, dos pormenores porque ali, naquele momento, estava-se a ViVeR. Literalmente a ViVeR porque a Alice, sim a Alice não tinha tempo a perder com aquela batalha que estava a travar por dentro, das células boas e das células más. Cancro. E mesmo a Alice não tendo tempo a perder, teve tempo para estarem os dois. Aquele encontro durou o seu tempo. Foi bom, genuíno, verdadeiro, cheio de ViDA e amor de partilha. A seguir cada um seguiu a sua vida, com a promessa de manterem contactos mais estreitos e regulares. Para partilharem o que realmente importa, filtrando as miudezas.

O Luís levou isso mesmo. Filtrar as miudezas. É que quando se leva um estalo assim, as milhentas angustiazinhas diárias ganham outra dimensão. Que chapada.

Dá que pensar, não?


Dedicada a minha querida A.M.





Se não funciona.

Há técnicas muito elaboradas, altamente sofisticadas. Anos de estudo para lá se chegar.

Técnicas só para especialistas com visão, que sabem o que fazem após anos de experiências. Saberes acumulados, confirmados.

"Olhe, se faz favor, o meu computador não dá. Não consigo aceder aos documentos gravados ontem... Sabe, é importante, estão ali muitas horas de trabalho. Sabe o que posso fazer?" - ouve-se quase em surdina e desespero de quem se sente vencido pela máquina. 

"Claro, claro. Já experimentou...desligar e voltar a ligar?"

E é isto. É isto que se ouve de quem sabe o que realmente é importante, separando uma série de procedimentos inúteis, que complicam, emperram e levam tempo, a quem o tem que aproveitar. Desligar e voltar a ligar. Só isto. 

Imagine-se uma conversa que não tem qualquer interesse? Desligar e voltar a ligar.
Aquelas chatices diárias de trânsito, burocracias sem fim. Desligar e voltar a ligar.
Pessoas que insistem em melgar, só porque sim. Desligar e voltar a ligar.
Trabalhos chatos, chatinhos, chatinhos. Desligar e voltar a ligar.

E não se pense com isto que se estará em negação porque as pessoas, o trabalho, e algumas chatices, são de uma espécie, especializada que se tem que enfrentar e resolver, tipo carrapato-mor. Mas às vezes basta reiniciar o NOSSO sistema interno, respirar fundo e daqui vai disto!

Por isso, se não funciona, é desligar e voltar a ligar. 





Re-olhar

Abre a porta do carro. Senta-se, coloca o cinto, põe o carro a trabalhar, música a dar, aquecimento ligado. Durante uma semana, por caminhos novos e uma paisagem "diferente". As cores parecem mais vivas, as árvores maiores, os nomes das terras surpreendem.

Tudo é a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e diferente. Será?

Será que diariamente, nos caminhos de sempre, normais, banais não existem cores, texturas por descobrir? Nas relações de cada dia, não haverá nada de novo por encontrar ou RE-descobrir?

Acontece muito, muito que basta mudar-se de morada, de ambientes, de amizades que tudo parece espetacularmente fabulosamente bom. A novidade inquieta-nos e de certa forma causa uma certa paixão cega. Porque parece ser seletiva em mostrar tudo o que tem de bonito, ficando para mais tarde a descoberta das particularidades ou, como se chama por aí, defeitos. 

E o desafio está um pouco por aí. Em Re-olhar. Porque quando se vêm paisagens novas, programa-se para a novidade e surpresa. Contudo, re-descobrir cores, linhas, particularidades Novas, no dia-a-dia de sempre, procurando valorizá-las é toda uma nova dimensão. 

Re-olhar. Porque as fotografias que se seguem foram de locais novos e descobertas, mas fizeram relembrar que o que se deixou por uns tempos, estaría à espera para se redescobrir. Porque felizmente, a natureza e as relações crescem, mudam a cada dia que passa. Assim como os projetos e trabalhos em que estamos envolvidos. 

Re-olhar. 


















Mudar de pincel

"If you get stuck, draw with a differente pen" é uma frase de Paul Arden. 

O contexto é o da publicidade e afins mas dá que pensar em termos do comportamento, das escolhas.

Há sempre uma série de escolhas que não estão a funcionar.
Parece sempre mais do mesmo, não é? 
O mesmo tipo de namorados, de ambiente ou propostas de trabalho, de dietas loucas, de corte de cabelo desajustado na cabeleireira de sempre, do mesmo caminho, casa-trabalho-casa, de discussões sem saída, de tantas e variadas respostas...sempre muito iguaizinhas, insatisfatórias e sensaboronas. 

E isso levou-me a pensar, se as respostas que se costumam opter, CONTINUAM a não funcionar ,talvez esteja na altura de mudar as perguntas ou o paradigma que as compõem. 

Ser louco, no sentido de sair da normalidade individual. Assumir a responsabilidade individual de mudança, de reajustos e alterações. 

Ser criativo, fazer algo que normalmente não se faria. Só assim, se conseguem encontrar respostas que normalmente não se teriam. 

Criar condições diferentes, explorar mais além do que o normal raio de visão pessoal. Ver para lá do que seria esperado em cada um. Mudar o seu paradigma pessoal de ação, provocando assim reações, consequentemente diferentes.

Por isso, se a vida emperra, mude-se de lápis, para pincel, mude-se a forma de desenhar os dias, as relações, a forma de trabalhar. Mudem-se os caminhos feitos todos os dias, mecanicamente, a cor do cabelo, o mesmo pedido do restaurante do bairro. Mude-se a resposta afetiva, emocional, o sorriso e olhar, fazendo o outro pensar, interrogar-se Porqué? 

Mude-se para fora, que por dentro a mudança vai acontecendo, até que finalmente se acredite ser capaz e a mudança faça parte de si mesmo.




O puzzle 3D

O puzzle tinha várias partes. Primeiro começou pelas bordas mas rapidamente percebeu que assim não iria funcionar. Largou. Começou então por juntar cores semelhantes e o que parecia ser uma variedade imensa de azuis, veio a verificar que fazia pouco sentido e sem ligação. Apercebeu-se então que teria que fazer o puzzle como um todo, incorporando as extremidades, com o centro, as cores, a forma final, um propósito de puzzle...ou de vida. 

Há quem dedique uma vida inteira a correr ou caminhar. Há quem não faça exercício físico algum. Há quem só trabalhe. Só quem se dedique aos amigos, excluindo a família, ou só olhando para os seus, renegando a importância de uma boa amizade. Há quem se abstenha de sexo, o evite, o ache maçador ou aborrecido. Há quem goste e nele descubra o prazer do outro e de si. Há quem aprecie a boa comida, a deguste, a cozinhe para os outros. 

Há tantas partes em nós. Há 24h por dia, 7 dias da semana. E naquela manhã, um pouco a contragosto, vestiu o fato de treino e resolveu ir caminhar. Em passo acelerado, avançando um pouco mais do que no dia anterior. Sabendo que após o esforço inicial, a sensação de ter dado atenção ao corpo, potenciando o que seria possível potenciar, mesmo que em ritmo de passadas largas, iria fazê-lo sentir melhor durante o resto do dia. 

Um puzzle a 3D. Todas as partes são importantes para uma realização mais plena, completa e integrada.

O ser humano é um ser de várias dimensões: 
intelectual e cognitiva, 
emocional e relacional
física e sexual
espiritual e contemplativo... 

E todas essas dimensões compõem o todo. Umas vezes mais se investe numa dimensão do que noutras. Faz parte. Mas serão igualmente importantes. Por vezes, só quando finalmente se dá, de novo mais atenção a uma delas, esquecida pelos dias e obrigações, se apercebe que nos torna tão mais completos e felizes. 

Há no planeta, as chamadas zonas azuis de longevidade. Gente que insiste em viver mais anos, ultrapassando com qualidade, a fasquia dos 100. Sem dietas, sem ginásios, sem fundamentalismos, comprimidos milagrosos. Gente que insiste em viver de forma simples e COMPLETA. Que não se esquece da importância do sentido de comunidade, de família e amigos, que tem cuidado com a comida de forma despretensiosa, que se exercita diariamente em tudo o que faz. Gente que com 103 ainda faz cirurgias de coração aberto, ou está inserido num programa de voluntariado. 

Deixo esta TED Talk, que vale a pena ver. Um investimento em nós, em todas as nossas peças de 3D. Porque todas são importantes.

http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/dan_buettner_how_to_live_to_be_100.html




A capacidade ilimitada de falhar

Fala-se pouco de falhar. De cometer erros.

Aliás, fala-se precisamente do contrário:

"Não erres! Tem cuidado, não falhes, não sejas um falhado na vida..."

Na escola, os erros são sempre vistos como algo negativo. Muitas vezes revelam pouco empenho e esforço. Muitas vezes, com o acompanhamento certo são o incentivo para fazer MELHOR, MUITO MELHOR. Apenas é preciso incentivo, perceber-se o que fazer e que o erro, todos os erros fazem parte do caminho, tanto ou mais do que chegar lá...chegar onde se quer. São uma aprendizagem. Fala-se pouco do erro, de falhar.

Por isso, erre-se muito, sempre. Sempre no sentido do caminho que se faz, dos ojbetivos estabelecidos. Por isso os atletas são um tão bom exemplo. São horas de treino diário, semanas, meses, anos a chegar a um ponto de excelência pessoal. Umas vezes supera-se a marca dos outros mas o principal são as marcas pessoais, passar para lá dos nossos limites ilimitados.

Passar para lá dos limites, falhar e depois vencer.

Precisamos de falar mais sobre falhar. Porque faz parte do caminho para lá se chegar.

Aqui fica. Uma sugestão que fala das falhas, dos medos e de tudo o que faz parte para se lá chegar... :) Por isso, os votos de hoje são, falhem muito, tentem muito... o caminho vai-se construindo.

http://www.jornaldoempreendedor.com.br/destaques/inspiracao/os-10-maiores-videos-motivacionais-do-youtube?utm_source=Facebook





Compostagem Emocional

Livrar-se do lixo, do pó, da roupa suja, papéis amarrotados.

Livrar-se de relações pobres, despidas de sentido.

Livrar-se de conversa oca, de circunstância, só porque sim.

Livrar-se de tudo o que empecilha o movimento, que faz tropeçar, parar no tempo, como se o tempo não tivesse tempo contado.

Livrar-se de tudo isto e muito mais. Tudo o que refreia, chateia e aborrece.

Livrar-se das gentes que tratam mal só porque apetece e se está ali ao pé.

Livrar-se da incompetência, da falta de valores e consideração.

As vezes livrar-se disto tudo passa por bloquear cá dentro. Pôr um ponto final.
Porque quando se livra disto tudo e se deita na compostagem emocional, nascem coisas novas. 
Livrar-se de algo é tornar-nos mais livres "deles", mais espaço para surgir em nós, o Novo e Ousado.
O respeito, a valorização pessoal. 
Por isso, receita-se a compostagem emocional: deitar fora o que não presta. O espaço deixado SÓ PODE TRAZER COISAS BOAS...afinal, o primeiro passo para a mudança já começou...o resto é uma grande aventura!