Tem medo

Tem medo de arriscar.
Tem medo de ser mau pai/má mãe.
Tem medo de não ser amada, de voltar a apaixonar-se, de fazer amor.
Tem medo de ser despedido.
Tem medo de não receber ordenado.
Tem medo de perder a casa.
Tem medo que a amiga nunca mais lhe fale.
De abrir a carta das análises. É positivo? 
Medo. Medo. 

Ter medos no sentido de se ficar parado. À espera. Avanço? Recuo? Desisto?

Medo de um dia se aperceber que não valeu a pena. 

Assumir o medo é o primeiro passo para o libertar. Dizer-lhe o nome. Olhá-lo na cara.

Tenho medo de... "Ouviste? TENHO MEEEDOOO DE TI!"

Feche-se agora os olhos (depois de ler o texto!). Imagine-se o medo em toda a sua cor e dimensão. Com todos os seus pormenores. A nossa reação. Os outros medinhos mais pequenos, associados a ele, os parasitas, que se riem e alimentam do medo. Os medinhos. Imagine-se todos eles...a sair de onde moram cá dentro. Imagine-se esses medos, todos dentro de um balão, cheio com eles, a subir...subir, cada vez mais longe.

Os medos se foram. O que fica? Um espaço imenso, gigantesco de possibilidades, inúmeras hipóteses e caminhos, sem nada a travar. 

Os medos paralisam, toldam os movimentos, a ação, o agir. Quando se libertam fica essa gigantesca possibilidade de respirar e prosseguir. 

"- E eles voltam?
- Claro! Faz parte.
- E o que faço?
- Sente-los de novo, para depois os deixar partir. Já fizeram o que tinham a fazer. Fazer-te agir, procurar respostas, libertar inseguranças e fazer um caminho mais cheio de possibilidades."

Por isso, que se fechem os olhos, se deixem os medos entrar num balão e ficar a vê-los partir. O que fica, será bem mais rico. 



As tentativas

A vida não são tentativas. Ou se respira ou cai-se para o lado. 

Imagine-se o coração a dizer:" Ai vou tentar bombear o sangue...talvez consiga, talvez não. Ups! Morreu!!!"

Ou um bebé dentro da barriga da mãe:" Vou ver se acerto na saída. É lá...se calhar é melhor não...talvez sim, talvez não!"

Ou ainda um bombista suicida:" Talvez aperte no botão...talvez aperte só meio botão...não sei." Bom, neste caso até é benéfico ser só uma tentativa e ficar por aqui MAS a esmagadora maioria dos casos ou se faz à séria ou não. Entregar-se de corpo e alma.

"Vou tentar fazer um bolinho bom." Caramba, assim nem as gemas, nem as claras acreditam no que está a ser feito. AGORA se disser que vai fazer o melhor bolo-de-chocolate-do-Bairro-da-Papoila, que até a Alzira do 2º esquerdo vai-se roer de inveja, só com o cheiro divinal a chocolate derretido... Aí sim, não há farinha, fermento ou açúcar que resista à convicção de uma massa bem mexida.

Se tudo fosse tão simples como um bolo de chocolate... Na verdade não é, mas tudo pode ser feito por passos e etapas.

Seja no trabalho, nas relações, nos afetos, nos sonhos por concretizar, seja na forma como se corre, se veste, se pinta, se dança ou escreve. Até na forma como se sonha e acredita.

As tentativas toldam a convicção de que vai correr bem, é assim uma zona cinzenta, que não ata, nem desata. 
Agarre-se o touro pelos cornos, Agarre-se de frente e com convicção. E aqui touro são os constantes desafios diários. Não os bichinhos simpáticos, que deixem-nos lá a pastar nos verdes prados, longe das arenas. 

Fora as tentativas fraquiiiiinhas, fraquiiiiiinhas? Venham as certezas que só se alcançam com a determinação de quem acredita que tudo está em aberto. Todas as possibilidades em jogo. Por isso... Fora as tentativas fraquiiinhas, fraquiiiinhas?




O carteiro tocou à porta

O carteiro tocou à porta. 
Abro e espero que seja alguma encomenda ou carta registada. A casa não é minha, mas na minha é assim que funciona. Na maior parte, acho. Encontro já o carteiro a entrar na carrinha, espantado por esta minha cara que não conhece e diz: “Há correio!”. Fecho a porta, um pouco sem perceber e digo: 
“ – Oh tia, mas aqui os carteiros têm tempo para tocar a campainha e avisar que há correio?? 
- Não minha querida, mas ele é um querido amigo nosso e devia ser para se meter connosco!”

E foi assim, mais ou menos, durante uma semana. Entre a vizinha que aparecia e dizia: “Olha aqui estas alfaces viçosas! Eu que saiba que andes a comprá-las!! Em precisando é só dizeres.” “Ó Luís, tire-me aqui a carrinha do meu homem que preciso de lavar o garagem e ele saiu cedo.” Ou ainda… “Vou ali levar as sobras do jantar e as cascas das verduras para o porquinho da vizinha…custa-me deitar isto fora se o bichinho até os come.”

Isto tudo passou-se numa cidade, pequena é certo, mas onde se vive em espírito de comunidade. Nem sempre assim será mas em tempos em que existem tantos espaços individuais, os espaços coletivos parecem importantes que se voltem a desenvolver. Um espaço que sempre existiu nas aldeias e que permitiu a sobrevivência física mas também muito de sobrevivência psicológica de tempos mais ou menos difíceis. Pode até não ser preciso nada mas só de se saber que está por ali alguém com quem falar, pedir, partilhar, a quem também se dá e por esse mesmo motivo, e ao mesmo tempo, se recebe

Qual a responsabilidade individual de cada um, no contributo coletivo? Cabe a cada um responder. Nem todos estarão para aí virados, encaixados ou ajustados. Ver uma experiência destas ao vivo faz pensar. E são tempos de repensar. 

Só um bocadinho…estão de novo a bater à porta…quem será?




A importância das pequenas coisas

“Estou gordo!”
“Tenho a casa num caos!”
“Faltam-me estudar 300 páginas para o exame de…amanhã!”
“Gosto tanto dela…”
“Não tenho tempo para brincar com os meus filhos.”
“ Há tanto tempo que não convido amigos cá para casa.”
“Não gosto do meu emprego.”
“Falta-me dinheiro para comprar uma máquina fotográfica.”

A lista não termina. Cada um tem a sua, diariamente ou até por uma vida inteira. Há muitos, muitos obstáculos no caminho. Existirão sempre. Fazem parte do percurso de cada um. Por vezes faltam as forças, a vontade, a fé e os recursos. O ânimo perdeu-se entre as rotinas, os papéis, as obrigações.
Quem já viu uma criança a desejar um brinquedo novo ou uma guloseima muito apetecida sabe que dificilmente desistem. Chegam a fazer grandes birras enquanto não têm o que conseguem. Umas vezes funciona. Outras não…mas TENTAM, acreditando que talvez desta consigam. Não ficam a lamentar-se da conjuntura socio-político-económica do país. Se têm mais ou menos recursos financeiros, se o mealheiro está ou não cheio. Isso são meros pormenores porque a VONTADE é maior. Ficam quase cegos e surdos aos argumentos dos adultos.
Umas vezes funciona. Outras não…mas TENTAM.
Na sua busca não há MAS ou QUANDO EU tiver dinheiro ou tempo. A VONTADE existe, o sonho também. O resto são pormenores de menor importância.
Umas vezes funciona. Outras não…mas TENTAM.
E assumem que a responsabilidade dessa vontade só a eles lhes pertence. Não arranjam intermediários, nem se desculpam com a vida ou os OUTROS.
Todo o santo dia, cada um levanta-se e é totalmente responsável por aquilo que fará desse dia. Dessa enorme bênção que é ter um dia inteiro pela frente de desafios, uns mais cinzentos, outros nem por isso. Desafios. Constantemente.
As mudanças podem acontecer nos mais variados ritmos. Mas que se TENTE. O ser humano é de hábitos, costumes, tradições. De saberes enraizados nos genes, milhares de anos depois do seu aparecimento. Por isso, que cada um encontre o seu ritmo de mudança. Mas que ela aconteça. AGORA. Com pequenos nadas, que façam grande mudança.
Não tenho tempo para 1 hora de exercício físico, que sejam 10 minutos.
Quero emagrecer e não sei como, então que se substitua um pão de cada vez, por algo que prazer e seja mais saudável.
No fim do dia não sobra tempo para os mais novos, então que sejam 5 minutos, de pura loucura, a dançar na cozinha enquanto se acaba o jantar.
Mas que se TENTE.
Que se COMECE.
Com pequenos gestos.
Das poucas coisas que podemos controlar é a
NOSSA vontade, a
NOSSA iniciativa, a
 NOSSA crença.
Com pequenas coisas.



O poder dos outros ou o respeito por Si Próprio

Estava a espera. E não era a primeira vez.

Talvez tenha acontecido alguma coisa. Talvez só hoje, realmente não teve culpa em se atrasar. Talvez, talvez...

E entre o esperar e não esperar, uma fúria crescia, uma revolta mexia nas entranhas. Silenciosa. Sempre silenciosa porque a sociedade assim o ditava. Afinal, há que esquecer, perdoar, desculpar e outras tretas.

Gritou. De novo. Explorou. Mais uma vez. Foi indelicado. Repetidamente.

Respeitar significa aceitar o outro na sua individualidade e particularidade de ser. Fazer-se respeitar passa por mostrar aos outros esses limites. Mostrar o valor próprio, até onde podem ou não entrar em quem somos, até onde vai o respeito que se tem pelo próprio.

Relaciona-se muito esta capacidade de ser assertivo com o valor que se tem em termos de auto-estima. Porque quando se gosta do que se tem cá dentro e por fora, não se permite que os outros interfiram de forma grosseira no seu bem-estar.

Quando se diz Basta! ou Já Chega! ao outro, ensina-se muito também a esse outro que precisa de aprender a colocar-se no seu lugar. Ensina-se que o tempo é precioso, que não volta, que tem prazo de validade e que é igualmente importante para os outros. Por isso, não se façam esperar!

Ensina-se a que o trabalho tem um valor próprio, merece ser validado como tal e que qualquer tipo de exploração é uma exploração de quem o executa.

E por fim, ensina-se que, mesmo celebrando a Diversidade Humana, há pontos que nos tocam e nos igualam, a condição humana e os valores que a sustentam.

Lia há tempos que o pior escravo é o que se deixa escravizar. Já basta, não basta? Que o respeito comece desde pequenos, com o exemplo dos grandes. Que o respeito surja nas pequenos nadas do dia, onde afinal, se encerra a sabedoria de sempre.

Por isso o poder dos outros, termina no ponto em que se permite entrar, na imensidão de quem somos...e somos muito!




O travão de mão

Só se ouviu um clique. "Ups! Lá se foi!"

Foi assim, do nada, no meio do vazio, que o travão de mão do carro morreu. Morreu sem possibilidade de resucitar ou reencarnear, ou lá que crença ele terá. Morreu.

Nuns segundos a realidade muda e transforma-se porque, convenhamos, há gestos que são automáticos e aos quais estamos habituados, partindo do pressuposto que vai ser sempre assim. Ter sempre água corrente, eletricidade, net ...  e um travão de mão.

Esta vida é por vezes um pouco destravada. Acorda-se porque sim, porque as rotinas se sobrepõem e impõem às responsabildiades do dia-a-dia. Por esse mesmo motivo é tão fácil de esquecer a importância que pequenos nadas têm, e que valem muito nos seus contextos.

Isto tudo dá que pensar. Nas pequenas bençãos. Em valorizá-las e tomar a consciência que elas existem. Porque só quando a máquina da roupa avaria é que percebemos a dimensão do estrago...e não se trata da peça que precisa de concerto. São as Grandes facilidades do que nos rodeia e das quais já não dispensamos.

Quem diz estes milagres materiais, diz também muito dos outros...as pessoas, amigos, família, animais...seja o que for. Tudo o que temos como garantido mas que na verdade pode não ser. Como o travão de mão.

(Este blog fez um ano! Agradeço a todos os que já por aqui passaram. Um beijinho especial à Ana Margarida Girão que ajudou a vesti-lo de forma mais bonita para a festa deste próximio ano.)



O Prazer

- Bom Dia Sr. Prazer!
- Ai que estou tão fraquinho...
- Não me diga! O que lhe fizeram? Onde está a paixão, o encanto, o amor, a vontade, o gozo...?
- Perdeu-se no tempo, nos seus afazeres, nas contas e desprazeres.

...

Levanta-se todas as manhãs quase a atirar-se da cama. Arrasta-se para a casa de banho. Atira com a água para uma cara ensonada, um corpo adormecido...há muito. "Este sou eu?" Passa pela cozinha, enfia algo na boca só para calar o estômago, ainda mais mal-disposto que ele. Olha para o relógio e percebe que mais uma vez vai chegar atrasado. Alta e escandalosamente atrasado. "Quero la saber!"

...
Olha para ela e não percebe para onde foi o encanto. Perdeu-se algures entre sopas, fraldas, as eternas rotinas e afazeres, as muitas contas e apertos orçamentais. Sobrevive-se a dois, a três, a muitos mais. A vida passou a ser algo mecânico, automatizado. "Já não me interessa,desde que não me chateiem muito..."
...
 
O prazer. O prazer de espreguiçar, de começar o dia e ver um sol de 40 graus num dia de Inverno. De sentir o calor a percorrer o corpo até aquecer a alma. 
O prazer de s-a-b-o-r-e-a-r a comida, de a sorver, mastigar, engolir, de olhar para ela, contemplar um bom prato de massa, um chocolate quente, um bolo acabado de fazer e sentir-lhe o cheiro.

O prazer de e com o outro. De voltar a apaixonar-se, com o mesmo ou com outro. E de elevar essa paixão diariamente a um outro nível, e a vários ao mesmo tempo: de corpo, espírito e alma. E das pequenas coisas no dia-a-dia. Ter prazer com e nele. 

Ter PRAZER senhores, e rir a bandeiras despregadas, de forma descontrolada como só os loucos e sábios sabem fazer porque não tendo noção da realidade, ou antes sabendo que ela é infinita, vivem sem limites de convenções e regras impostas.

Ter PRAZER senhores, muito mais prazer. Louco e desmedido. Criativo. Artístico. 

Porque imagine-se que o PRAZER ainda não é pago...e falo em surdina para ninguém ouvir...não vá alguém lembrar-se. 

PRAZER, PRAZER, PRAZER...fala-se pouco de prazer. 
Prazer como o de escrever aqui...há tanto adiado e hoje tinha de ser. Hoje o primeiro dia deste ano. Porque me apeteceu que assim fosse. FELIZ ANO NOVO!!! Que seja quando nos quisermos, várias vezes ao dia.