O poder dos outros ou o respeito por Si Próprio

Estava a espera. E não era a primeira vez.

Talvez tenha acontecido alguma coisa. Talvez só hoje, realmente não teve culpa em se atrasar. Talvez, talvez...

E entre o esperar e não esperar, uma fúria crescia, uma revolta mexia nas entranhas. Silenciosa. Sempre silenciosa porque a sociedade assim o ditava. Afinal, há que esquecer, perdoar, desculpar e outras tretas.

Gritou. De novo. Explorou. Mais uma vez. Foi indelicado. Repetidamente.

Respeitar significa aceitar o outro na sua individualidade e particularidade de ser. Fazer-se respeitar passa por mostrar aos outros esses limites. Mostrar o valor próprio, até onde podem ou não entrar em quem somos, até onde vai o respeito que se tem pelo próprio.

Relaciona-se muito esta capacidade de ser assertivo com o valor que se tem em termos de auto-estima. Porque quando se gosta do que se tem cá dentro e por fora, não se permite que os outros interfiram de forma grosseira no seu bem-estar.

Quando se diz Basta! ou Já Chega! ao outro, ensina-se muito também a esse outro que precisa de aprender a colocar-se no seu lugar. Ensina-se que o tempo é precioso, que não volta, que tem prazo de validade e que é igualmente importante para os outros. Por isso, não se façam esperar!

Ensina-se a que o trabalho tem um valor próprio, merece ser validado como tal e que qualquer tipo de exploração é uma exploração de quem o executa.

E por fim, ensina-se que, mesmo celebrando a Diversidade Humana, há pontos que nos tocam e nos igualam, a condição humana e os valores que a sustentam.

Lia há tempos que o pior escravo é o que se deixa escravizar. Já basta, não basta? Que o respeito comece desde pequenos, com o exemplo dos grandes. Que o respeito surja nas pequenos nadas do dia, onde afinal, se encerra a sabedoria de sempre.

Por isso o poder dos outros, termina no ponto em que se permite entrar, na imensidão de quem somos...e somos muito!




O travão de mão

Só se ouviu um clique. "Ups! Lá se foi!"

Foi assim, do nada, no meio do vazio, que o travão de mão do carro morreu. Morreu sem possibilidade de resucitar ou reencarnear, ou lá que crença ele terá. Morreu.

Nuns segundos a realidade muda e transforma-se porque, convenhamos, há gestos que são automáticos e aos quais estamos habituados, partindo do pressuposto que vai ser sempre assim. Ter sempre água corrente, eletricidade, net ...  e um travão de mão.

Esta vida é por vezes um pouco destravada. Acorda-se porque sim, porque as rotinas se sobrepõem e impõem às responsabildiades do dia-a-dia. Por esse mesmo motivo é tão fácil de esquecer a importância que pequenos nadas têm, e que valem muito nos seus contextos.

Isto tudo dá que pensar. Nas pequenas bençãos. Em valorizá-las e tomar a consciência que elas existem. Porque só quando a máquina da roupa avaria é que percebemos a dimensão do estrago...e não se trata da peça que precisa de concerto. São as Grandes facilidades do que nos rodeia e das quais já não dispensamos.

Quem diz estes milagres materiais, diz também muito dos outros...as pessoas, amigos, família, animais...seja o que for. Tudo o que temos como garantido mas que na verdade pode não ser. Como o travão de mão.

(Este blog fez um ano! Agradeço a todos os que já por aqui passaram. Um beijinho especial à Ana Margarida Girão que ajudou a vesti-lo de forma mais bonita para a festa deste próximio ano.)



O Prazer

- Bom Dia Sr. Prazer!
- Ai que estou tão fraquinho...
- Não me diga! O que lhe fizeram? Onde está a paixão, o encanto, o amor, a vontade, o gozo...?
- Perdeu-se no tempo, nos seus afazeres, nas contas e desprazeres.

...

Levanta-se todas as manhãs quase a atirar-se da cama. Arrasta-se para a casa de banho. Atira com a água para uma cara ensonada, um corpo adormecido...há muito. "Este sou eu?" Passa pela cozinha, enfia algo na boca só para calar o estômago, ainda mais mal-disposto que ele. Olha para o relógio e percebe que mais uma vez vai chegar atrasado. Alta e escandalosamente atrasado. "Quero la saber!"

...
Olha para ela e não percebe para onde foi o encanto. Perdeu-se algures entre sopas, fraldas, as eternas rotinas e afazeres, as muitas contas e apertos orçamentais. Sobrevive-se a dois, a três, a muitos mais. A vida passou a ser algo mecânico, automatizado. "Já não me interessa,desde que não me chateiem muito..."
...
 
O prazer. O prazer de espreguiçar, de começar o dia e ver um sol de 40 graus num dia de Inverno. De sentir o calor a percorrer o corpo até aquecer a alma. 
O prazer de s-a-b-o-r-e-a-r a comida, de a sorver, mastigar, engolir, de olhar para ela, contemplar um bom prato de massa, um chocolate quente, um bolo acabado de fazer e sentir-lhe o cheiro.

O prazer de e com o outro. De voltar a apaixonar-se, com o mesmo ou com outro. E de elevar essa paixão diariamente a um outro nível, e a vários ao mesmo tempo: de corpo, espírito e alma. E das pequenas coisas no dia-a-dia. Ter prazer com e nele. 

Ter PRAZER senhores, e rir a bandeiras despregadas, de forma descontrolada como só os loucos e sábios sabem fazer porque não tendo noção da realidade, ou antes sabendo que ela é infinita, vivem sem limites de convenções e regras impostas.

Ter PRAZER senhores, muito mais prazer. Louco e desmedido. Criativo. Artístico. 

Porque imagine-se que o PRAZER ainda não é pago...e falo em surdina para ninguém ouvir...não vá alguém lembrar-se. 

PRAZER, PRAZER, PRAZER...fala-se pouco de prazer. 
Prazer como o de escrever aqui...há tanto adiado e hoje tinha de ser. Hoje o primeiro dia deste ano. Porque me apeteceu que assim fosse. FELIZ ANO NOVO!!! Que seja quando nos quisermos, várias vezes ao dia.




Os vários enterros

Chegada a idade adulta, é certo e sabido que já se passou por vários enterros.

Enterro do primeiro amor não correspondido.
Enterro daquela amiga muito especial e que, afinal...não era!
Enterro das calças que deixaram de caber, porque o "material" de que são feitas não presta.

E talvez pareça estranho que  se encerre o ano no blog usando a palavra enterrar.

Este ano, e olhando em redor, houve vários e muito momentos de enterro:

Do emprego de que sempre gostamos e que chegou ao fim.
Da relação que se jurou ser para sempre e terminou.
De alguém, de quem se gostava tanto e que morreu.
Do sonho transformado de ser mãe em algo diferente.
De um estilo de vida e riqueza desaparecido.
Da casa dos sonhos, entregue a outros.

Segundo o dicionário Priberam da Língua Portuguesa, enterrar significa, esconder ou meter debaixo da terra.

É possível encontrar duas grandes vantagens:
a) encerram-se assuntos. Faz-se o luto, chora-se, grita-se, revolta-se. Mas depois já chega. Não se pode VIVER em constante tristeza por aquilo que já não existe.

b) o que se enterra em solo fértil tem sempre grande probabilidade de nascer. Nunca igual. Mas provavelmente mais forte e rico pela aprendizagem.

Com este pensamento e perspetiva encerra-se por aqui o ano. Foram muitos, diversificados e alguns acontecimentos dolorosos. Por isso, um a um estão a ser alvo do respetivo serviço fúnebre. Algo de novo já está a nascer. Porque se recusa por aqui, a viver nesse estado de velório continuado. Já basta o que basta. Louva-se e agradece-se tudo o que tem resultado daí.

Em jeito de encerramento, veste-se uma roupa colorida, colocam-se velas perfumadas, abrem-se janelas e compram-se flores frescas. Ama-se muito a quem está por perto, mesmo que a muito quilómetros de distância.

A vida prossegue, a cada segundo que passa.

P.S.: Agradeço profundamente o apoio prestado a todos os que por aqui passaram. Quase na meta das 2 mil visualizações! Para o ano há mais.

Para lá do Centro

Trabalho, Trabalho, Trabalho.
Filhos, Filhos, Filhos.
Namorado, Namorado, Namorado.
Amigos, amigas, amigos, amigas.

A lista não termina. Os centros das nossas Vidas podem ser tantos, quantos os temas, gavetas ou categorias que caibam no dia-a-dia.

Quando existe um centro, o resto ficará na periferia, um pouco à margem a observar  ou a fazer o seu próprio caminho. Mas fica algo para trás. É inevitável. É inevitável também que assim seja em fases e períodos de tempo porque algo exige, por esses tempos, uma atenção maior e mais especial. Que assim seja.

Mas a certa altura é preciso voltar à periferia e ver o que por lá ficou:
  • ter filhos e voltar à relação que os originou;
  • ter um trabalho exigente e lembrar-se como é bom rebolar no chão com os filhos;
  • namorar muito mas prolongar um jantar de só família;
  • sair muito com amigas mas não esquecer de namorar;
  • e tudo isto...e não se esquecer do próprio.

É que às vezes, de tão centrado que se está num só ponto, esquece-se que são os tantos outros que lhe dão tanto gosto. Que são os tantos outros que complementam aquele ponto central que apenas o é tanto...naquele momento. Tudo gira a uma velocidade grande, e por vezes é tão bom abrandar e voltar a olhar para lá do centro.

A verdade, é que aquele relatório, prova, namorada, companheiro, filhos, trabalho, são apenas uma das muitas peças que nos ocupam e identificam. Umas mais importantes que as outras, é certo.

Mas quando se consegue ver para além desse centro, é-se muito mais rico e completo. Desdramatiza-se muita coisa, porque se deixa de ver o próprio apenas num papel de Vida.

Há quem lhe chame o Ying e o Yang e tantas outras coisas. A ideia de equilíbrio na sua visão mais dinâmica.

Nem 8, nem 80. Para lá do centro.




Gostar de Gostar

Gosto do cheiro bom a pão fresco;
Gosto de dias de sol e estendais de roupa cheios com cheiros de amaciador;
Gosto de vê-los a brincar, a correr um à volta do outro, de caírem, voltarem a rebolar como se não houvesse amanhã;
Gosto de começar uma receita novinha e ver o que dali vai sair;
Gosto de enroscar-me no sofá, ver um filme, rodeada de lenços e mantas macias e ficar ali a mergulhar na história;
Gosto deste novo vaso que a minha mãe me deu;
Gosto dela…muito, e dos outros do meu sangue;
Gosto também daqueles que escolhi fazerem parte da família alargada mas tão próxima: as manas, manos e sobrinhos de ternura;
Gosto do verde, muito e desde sempre…o brotar da Natureza;
Gosto do meu trabalho, do que faço e crio, de trabalhar com a criançada, dos pretendentes-a-crescidos e dos já crescidos …ou nem por isso (!);
Gosto de ficar ali a esticar-me, puxar os limites do corpo e da alma e perceber a sua dimensão;
Gosto de um café bem tirado, mesmo não bebendo café…gosto que os outros gostem dele.
Gosto de …
Hoje gosto de Gostar. É urgente voltar a Gostar porque a vida surge e desaparece num sopro. Porque nos tiram ou querem tirar tudo e muito, mas o Gostar é Nosso. Ouviram? É Nosso.
E porque a última palavra não pode ser para eles (sejam eles que abutres forem…com todo o respeito para os animais), Gosto de Ti. Gosto de Nós.
E tu?

Síndrome do Todo-o-Poderoso

Há quem goste de misturar farinhas, açúcares e ovos e ver no que dá.
Há quem pegue em recortes de jornal, revistas, tesouras, réguas e papel e componha  arte.
Há ainda quem goste de escrever, esculpir, criar jardins dentro de vasos. Mexer em tintas, mudar móveis. Pegar em restos de tecido e inventar moda.
Há também quem invente brincadeiras e jogos. Surpresas para os outros.
CRIAR.