Felicidade em Promoção

É verdade que há crise…para alguns.
Que desemprego, salários piquenos, condições de trabalho precárias, exploração e aproveitamento da situação também há … para a maioria.
E o que resta? O que sobeja?
Neste ano de constantes desafios pessoais e profissionais, de autênticas acrobacias olímpicas (como é que ainda não se lembraram de uma modalidade tipo: salto em comprimento do ordenado de um mês para o outro) resta uma série de competências que têm sido uma mais valia…pelo menos para estes lados:
·         Criatividade;
·         Flexibilidade;
·         Improvisação;
·        
Surge assim a ideia de Felicidade em Promoção. Tão fácil de esquecer coisas que nos colocam um sorriso no rosto ou um aconchego cá dentro…e tudo por menos de 1 euro ou grátis!
ü  Requisitar livros e DVD´s numa Biblioteca;
ü  Brincar;
ü  Namorar;
ü  Passear a pé;
ü  Observar filhos a brincar;
ü  Visitar alguém de quem se gosta;
ü  Dormir;
ü  Um bom banho;
ü  Um café com amigos;
ü  Organizar e ver fotografias;
ü  Banho no rio ou na praia mais perto;
ü  Uma refeição na varanda, terraço ou junto à janela;
ü  Enviar um postal ou um mimo a alguém de quem se gosta;
ü  Enviar sms a alguém que não está a espera…só porque sim, a desejar um Bom Dia.

Tudo isto parecem lugares comuns, coisas vulgares. Mas apercebi-me que me dedicava pouco à felicidade, que esta não pode depender de um contrato, de um recibo verde, da resposta de uma empresa ou banco. Que os malditos problemas vão continuar a persistir. Grandes, gigantes do tamanho da pessoa inteira, da alma e há dias que mais além, não deixando antever futuro, nem esperanças. Por isso essa vontade de fazer-lhes frente continua a persistir, nem que seja com listas simples de Felicidade em Promoção. Com o treino, ainda me arrisco a ser inspecionada pela Autoridade não sei das quantas para a fiscalização das Promoções…
E a vossa lista baratucha de Felicidade em Promoção?


As marés...e o hipnotismo

A onda vai. A onda vem. A onda vai. A onda vem. A onda vai. A onda vem. Já sente náuseas? Bom sinal. Significa que está hipnotizado e que dentro de 23 segundos e meio vai começar a cacarejar como uma galinha!

Destinos à parte, coisas místicas e cartas astrais e por aí fora, é curioso como às vezes os acontecimentos nos empurram para sítios para onde não imaginávamos parar. Por mero acaso está a trabalhar-se em áreas que não se contava, enquanto portas que sempre estiveram abertas e pareciam tão seguras, se fecham. Durante bastante tempo insiste-se em continuar a bater às mesmas portas, tunga, tunga, tunga e… Nada! Até parece que estamos a falar para o vazio, a parede ou um coelho (percebeu-se a subtileza da piada política-social-atual?).
Depois de muita insistência, de haver galos por tudo quanto é testa, sangue a esvair-se, lágrimas até, aceita-se e conforma-se que aquela porta fechou de vez. Não adianta. O curioso é que entretanto, muito tenuemente surgem sinais (que dava jeito que fosse do tamanho dos de trânsito…mas para isso o Universo ainda não está virado) de alternativas.
Então…para quê remar contra a maré, quando essa maré já se foi? É deixar ir na onda, na crista ou sem ela, mas deixar porque novos caminhos estão para ser descobertos. E isto tanto vale para as relações, para as profissões, para o trabalho sejam lá que mudanças forem. Às vezes  é assim. Deixar ir ao sabor da onda e ver o que ela traz.
20, 21, 22 … 23!!!! Toca a cacarejar!!!!



O Peso das Coisas

Era uma fatia triangular. De um chocolate vivo e brilhante. O creme, também ele de chocolate e de frutos silvestres, a escorrer pelo prato a fora, à procura de um espaço para se destacar, no meio daquela tentação doce, quase pecaminosa, a gritar em suplício para ser devorada.
Dá-se uma primeira trinca e mais outra. As seguintes, já em sufoco surdo, fizeram desaparecer aquele pedaço de mau exemplo às boas regras de nutrição.
Fala-se, escreve-se e publica-se muito sobre comida: blogues, programas, medicamentos, tratamentos e afins, a comida é esmiuçada até mais não. Quase até às partículas ínfimas de um átomo.  E se elas são pequenas! Fazem-se muitos sacrifícios, em prole de uma vida saudável porque hoje as tentações são mais do que muitas e ao virar de cada supermercado, pastelaria ou loja de comércio alimentar. Longe vão os tempos onde apenas se estava rodeado de árvores de fruto e umas quantas hortas. Agora está tudo tão à mão (e quem se terá lembrado de colocar à venda pastéis de nata e outras delícias da pastelaria, mesmo ali perto das caixas de pagamento?!?!) que  é muito mais difícil de resistir.
E aguenta-se, aguenta-se muito para um corpo mais são. Ainda bem. Mas também se coloca muito peso nas coisas. “Ai que respirei o ar desta tarte e estou a engordar!” A comida acaba por ser comida mas a culpa é tão grande que todo o encanto natural de se ter algo genuinamente bom à nossa frente, desaparece. Nesse dia, para além de calorias a mais, também se ingeriu, ressentimento, culpa, desvalorização…tudo o que tira a graça a algo tão simples como é comer, saborear.
Que seja uma vez por outra, que o pecado da gula entre pela goela adentro, mas se for para pecar, que se peque em consciência, se entenda que é um ato isolado, e que comido com prazer alimenta partes nossas que não o corpo. Como tudo, feito com parcimónia, na medida certa, só pode fazer bem. Os malditos pesos de consciência, sejam sobre a comida ou outras maleitas qualquer, atormentam feitos abutres o nosso equilíbrio e bem-estar. Por isso há que dar-lhes o devido peso, sem exagerar.
Toda esta conversa deu cá uma fome…com juizinho mas com vontade!

E quando um estranho se aproxima...

Devia ter perto dos 5 a 6 anos e já achava muita graça às experiências com os outros, ver-lhes as reações. Por essa idade era frequente, quando andava na rua, virar-se para as pessoas que passavam no passeio e do nada dizer apenas: “Bom Dia!”, com sorriso discreto mas sincero, as respostas, um pouco surpreendidas não se faziam esperar e quase sempre, entre um murmurar e outro, o sorriso e a saudação eram devolvidas.
Ainda hoje, a “experiência sociológica” persiste em contextos mais elaborados: nos correios, repartições de finanças…seja onde for, de vez em quando sai um Bom Dia com sorriso e as respostas aparecem.
Acontece por vezes, quando se tem que tratar de assuntos chatos e piolhosos, pegar-se no telefone e no fim da conversa ficar-se com a sensação boa de se ter sido bem atendido. Alguém, anónimo, decidiu naquele momento fazer-lhe o que lhe competia profissionalmente mas ir um pouco mais além e ser gente.
O desafio está aí. Ser-se gente para quem não se conheça: seja com Bom Dia, seja cedendo um lugar, elogiando uma peça de roupa, seja lá o que for… fazer bem a alguém que não se conheça.
Utopia ou não, acreditar que o bem anónimo faz bem e se multiplica a partir daí, traz mais de volta do que aquilo que em dez segundos se dá. A experiência na maior parte dos casos vale a pena, a sensação de bem-estar também.
E se o dia tem 86400 segundos (acabei de fazer a conta na máquina!), o que são 10 segundos?!
Por isso, quem sabe, se um dia destes, não nos cruzamos por aí, e sem combinar nada, sai um Bom Dia, com direito a sorriso e tudo J



Ficar estrábico-no-bom-sentido

Senhores Passageiros é favor apertarem os cintos. A viagem com destino ao Rio de Janeiro inicia-se dentro de momentos.”
Sem mais, os pés perdem o chão. Olha-se pela janela e lá fora as casas transformam-se em pontos minúsculos e os campos compõem uma manta de retalhos. Aquilo que parecia gigantesco há uns segundos atrás, passa a pertencer a um qualquer mapa de escala reduzida. Faz tudo parte de uma escala global em que se muda de perspetiva.
Às vezes de tão centrados nos problemas, esquece-se da mudança de perspetiva. O drama da perda de um grande amor aos 6 anos é tão grande como aos 25…a diferença, talvez esteja na memória dos acontecimentos! É que aos 6 há sempre o outro vizinho da frente que afinal é mais giro! Simplifica-se. O que não significa que não se tenha chorado, sofrido, entristecido até mais não… apenas aos 25 anos isso já parece tudo muito longe.
Aquilo que agora parece consumir as entranhas, daqui a uns tempos já não terá o mesmo peso. Quando se lá está centrado e consumido não se vê mais nada. Há assim uma espécie de cegueira momentânea. Por isso o “levantar voo” ajuda tanto…lá de cima o problema fica minúsculo e vê-se o quadro geral.
Seja lá de que forma for, ficar estrábico-no-bom-sentido, é uma vantagem. Mudar a perspetiva, perceber que há vida para além de Marte ou outro planeta qualquer. Por isso façam o favor de trocar os olhos, revirá-los, entortá-los.
Mudança de perspetiva. Ver as coisas sob um outro ângulo.

As pessoas-tipo-sarna-peçonha-e-afins

A psicologia e psiquiatria têm uma série de tipologias e designações, classificando em função de sintomas e sinais, as pessoas em determinadas categorias facilitando assim terapias e intervenções. O mesmo sucede com a medicina, provavelmente com a homeopatia e por aí adiante.
Contudo há todo um novo universo a explorar: as pessoas-tipo-sarna-peçonha-e-afins. Não se vê retratado em nenhum manual enciclopédico da existência humana, nem em motores de busca tipo Google. Não se vê…até agora!!!
As pessoas-tipo-sarna-peçonha-e-afins, com o nome técnico de P.T.S.P.A., são pessoas que incomodam, só de se respirar o ar em comum. Um simples pestanejar é sinal de um tsunami a caminho. Há quem lhes chame cunhadas, sogras, vizinhos, colegas de trabalho ou emplastros. Claro, há exceções. Como sempre. Mas as regras são assim tipo, melga a pousar lentamente no braço…já se sabe como vai terminar! Alguém a esbracejar furiosamente até dar cabo do bicho que mais uma vez se escapa. E fica aquela sensação de não se ter feito nada para benefício próprio a não ser figurinha triste.
Ocorreu-me que é possível  viver num tempo e espaço que apenas a nós pertence. Não significa que tal indique isolamento numa ilha algures. Apenas o respeito próprio de permitir a entrada dos pensamentos e das pessoas que fazem sentido. Tudo o resto fica a porta. Pensando que cada 24 horas, se passa algum tempo a maldizer a vida das P.T.S.P.A. é tempo tão desperdiçado que até dói! É dar valor a alguém que em nada contribui para o bem-estar. Esquecer as prioridades do que realmente nos faz progredir como seres humanos.
Um tempo e um espaço em que o próprio decide quem incomoda ou não. Sempre que a tal irritação comece, compreender que a P.T.S.P.A fica à margem, na fronteira e não tem permissão de entrar na forma de estar e sentir do próprio. Controlar o pensamento, para controlar a forma de sentir.
Isto tudo até que não se invente um mata-moscas gigante… ;)


Ai que doi!

As Cirurgias e os Pensos
Ai que doi! Pronto já está. Um Penso Rápido e a ferida em pouco tempo deixou de o ser e fica uma fina cicatriz que o tempo fará desaparecer.
Mas o que fazer quando se põe um e outro penso? A ferida em vez de saturar continua a crescer, cada vez mais funda, cada vez mais feia e dorida. Há feridas grandes assim, que nem com todos os pensos coloridos e com bonecos do mundo fazem parar. E mesmo quando parecia que estava a começar a cicatrizar, vem mais um rasgão, sempre maior que o anterior até que muito sangue e dor escorra. Não se pretende dramatismos exagerados, nem dar voz aos falsos pessimismos sempre prontos a atacar feitos abutres.
A verdade é esta. Todos nós, numa ou noutra vez precisamos de uma cirurgia. De uma sutura a sério, de ficarmos esticados e “Por favor, anastesiem-me que já não aguento mais…”. Vive-se numa espécie de turpor, num estado semi-consciente e durante uns tempos deixamos que outros cuidem de nós: da roupa, da comida, dos filhos, do dia e da noite. Um espécie de internamento. A recuperação será tanto mais lenta consoante a invasão do bisturi. Mas enquanto houver células para voltarem a dividir-se haverá recuperação. Tem de haver. E depois, um dia, sem se aperceber, até já se consegue levantar da cama de “internamento” e retira-se o penso feito de compressas e está lá uma linha fina e delicada a sorrir e a dizer olá. “Vês, ficou a marca mas tu continuas e continuarás a levantares-te.”
É preciso tempo, para sarar, para esquecer algumas coisas, para se guardar e aprender outras. Tempo para que o corpo e o espírito se acalme e ganha forças de novo. Quando menos se der por isso já se está a pensar em coisas triviais. Dar tempo porque apressar nunca ajudou em nada. Dar tempo.