O Sofá

O Sofá é das peças fundamentais numa casa. Vejamos: lá se deita, estica-se, espreguiça-se, dorme-se, aconchega-se, enfim, aninha-se como os gatos sem vontade de lá sair. Com frio então, basta uma mantinha e é um suplício para a noite, arrastar-se para a cama. Parece que tem mel, o raça da peça!

E isto tudo porquê? A zona de conforto de cada um é assim como o sofá. Quando se dá por ela (ou ele!), está a fazer-se o que se aprendeu e conquistou em fazer e se passou a fazer bem. Por lá se fica, no aconchego do trabalho, amigos, nas mesmas rotinas de ... anos. Está quentinho, não maça, não incomoda ninguém, o ritmo cardíaco mantem-se o mesmo e a vida decorre. Não que tenha mal algum. Às vezes até sabe bem. Mas acontece também que surgem desafios e propostas que obrigam a sair do sofá, daquele conforto. Da zona de conforto. Explorar outras formas de nós próprios, facetas que achamos que não temos ou são difíceis. E se os desafios surgem para acordar? Para dar um abanão...do sofá? Sentir o coração mais acelerado, as dúvidas, as incertezas atacam feitas sanguessugas e isso pode ser bom. Feito com ponderação, calcula-se o risco e avança-se aos poucos. Ninguém está a pedir à D. Anacleta para começar a andar bicicleta já hoje à tarde! Caramba, primeiro ainda tem que gostar de usar calças!

O medo de cair no ridículo, de fazer figura triste é muitas vezes o suficiente para se ficar ali, no quentinho... Na zona de conforto somos nós. Na zona dos outros tentamos ser os outros. Contudo, mesmo na zona dos outros pode-se levar um pouco de nós e fazer à nossa maneira. A D. Anacleta talvez não vista logo umas leggins para subir à bicicleta, mas pode arregaçar a SUA saia e experimentar.
Experimentar:
1. verificar por meio de experiência; ensaiar;
2.pôr à prova; testar

3.tentar

4.provar

5.sentir

(Dicionário online Porto Editora)

Os próximos tempos são de sair do sofá. Durante o dia. À noitinha...ele estará lá de novo à espera, relembrando que aquele espaço sempre irá existir mas que às vezes é preciso ir um pouco mais além. E colocar almofadas de outras cores.

Vida Virada do Avesso

Diz-se que quando se veste uma peça de roupa das avessas por distracção, se recebe uma prenda. Por distracção! Não vale agora sair à rua com um look novo, só porque sim, e esperar tropeçar num embrulho com o nosso nome.

Mas ... e quando é a própria vida virada do avesso? Assim mesmo de pernas para o ar, em que a cada passo que se dá vem algo e TUNGA, mais um triplo mortal, TARUS e mais uma rasteira! É a chamada fase de camião TIR que cansa só de levantar para ser abalroado por um veículo-comprido-pesado-que-não-respeita-as-regras-de-trânsito-e-já-me-atropelou-de-novo. Aí não há Centro de Saúde que valha, nem Hospital, nem ir só ali à bruxa para ver se tem algum milagre na manga.

A vida virada do avesso é coisa para incomodar durante uns tempos largos porque afecta várias áreas. Mói, corrói e se não se estiver bem atento deixa marcas profundas que paralisam e parecem deixar, quem passa por elas, assim a olhar...para o próximo camião TIR que vier.

Da mesma forma que a única solução para se mudar o look do avesso, para o direito (e porque não o esquerdo...isto cheira-me a discriminação...) é por tudo como estava e pacientemente, despir para voltar a vestir, também no avesso da vida é começar com uma peça de cada vez, d-e-v-a-g-a-r-i-n-h-o. Dói levar com um camião ou uma frota inteira. Daí esta ultra sofisticada técnica slow. Uma peça do nosso puzzle de cada vez. E algumas que fiquem do avesso porque é fashion! E dão algum colorido.

Por isso hoje, e só para mostrar ao maldito avesso que ainda há muita energia para dar e vender, a mesa de trabalho foi completada com uma taça de água e flores frescas, oferecidas por alguém à distância e que quis estar perto mesmo assim. Estes são os melhores seguros de Vida que se podem arranjar. Amigos.


Hoje...nem que caissem Elefantes Bebés!

Há dias em que nem que caissem elefantes bebés na rua tirariam o sorriso do rosto. Em que se sente a vida dentro e fora de nós, mesmo que o Sr. Anibal nos roube o lugar de estacionamento...de novo.

Nem o vizinho do 3º esquerdo, ao atirar a beata do cigarro para cima da roupa acabadinha de estender nos fazem desistir desta sensação boa de felicidade. E há sempre algum medo de se sentir a felicidade. Mas ela existe e deve ser celebrada. Não é todos os dias que acontecem pequenos milagres como ver uma criança andar pela primeira vez! A primeira de muitos passos. Que recebemos notícias boas de amigos próximos. Em que por breves instantes percebemos o sentido do caos. Que a amizade sincera nos chega de quem nos quer tão bem através de mails, sms ou telefonemas.

Nesses dias em que é tudo muito cor-de-rosa ou outra cor qualquer, algo avança cá dentro. Acreditar em tempos cinzentos é, não só necessário, como fundamental. Mesmo que tenha um pouco de fantasia ou estupidez natural. Por isso hoje foi dia de se ouvir as músicas lá no carro em alto som (um CD já gasto mas "Mãe...só mais uma vez!"), de se buzinar várias vezes sem motivo aparente para arrancar um sorriso aos mais pequenos, só porque hoje é dia de... nem que caissem elefantes bebés! E digo elefantes bebés porque um elefante a sério é coisa para magoar assim um pouco quem apanhe com ele em cima. Mas só um pouco e quem sabe se a propósito dele não se conhece um enfermeiro giro? Quem sabe, hoje está tudo em aberto. Chovam elefantes, ou não.

P.S.: Só assim para celebrar o dia de cada um, os mimos, a pequena M., façam o favor de apagar as velas :)

Faço o que Posso e faço Tanto!

Há uns meses largos, estava numa loja de telemóveis à espera da minha vez para ser atendida. À minha frente um homem observava com surpresa o despacho da funcionária em realizar três tarefas ao mesmo tempo. A relação  informal entre eles permitiu que ele manifestasse o seu espanto em como é que ela era capaz de fazer mais do que uma tarefa ao mesmo tempo. Fê-lo sem gozo, com genuína incredulidade. E ela respondeu com a mesma genuidade de que era o normal.

Cada dia tem uma montanha de afazares e problemas imediatos para resolver. Todos eles urgentes e prioritários. Na maior parte das vezes, acontece precisamente isso, fazer várias coisas ao mesmo tempo. Tornou-se o normal, a única forma possível de funcionar e do universo ter uma ordem... Será? A resposta é de certeza individual e varia ao longo do tempo e das fases de vida.

Por estes dias, alguem muito querido e com um enorme sentido de oportunidade disse apenas, em jeito quase de oração e pedindo para ser repetido no fim de um dia cheio, muito cheio esta frase: “Faço o que posso e faço tanto.” Na verdade cada um, quando leva isto do seu dia-a-dia mais ou menos a sério, faz o melhor que consegue para aquele momento. E isso deveria bastar para nos sentirmos gratos no fim de cada dia. Sem pesos desnecessários de se achar que se deveria ter feito SÓ mais aquilo. É que há dias que parecem meses de tanto terem lá dentro acontecimentos, emoções, precalços e problemas. Faço o que posso e faço tanto...sensação de satisfação do presente e agora. Aceitação dos limites e energias. E agora vou ali sentar-me só por 2 minutos, não fazer nada a não ser contemplar aquela janela que está farta de me chamar!

Omeletes com meio Ovo

É sabido que as omeletes para ficaram bem feitas levam, pelo menos, um ovo inteiro. Pode-se juntar o que se quiser ou der jeito, mas partir meio ovo e guardar a restante metade não dá, não é prático. Um ovo existe para se partir e usar. Embalagem ergonómica de fácil utilização.

E cada vez mais, a quem trabalha e tem brio no que faz é pedido meio ovo mas com indicações que o resultado final terá que ser uma omelete inteira. E bonita, cheirosa e comestível como antes. Antes da crise, deste aperto. Estamos na era de D.T., depois da Troika. E chateia esta coisa de condicionar a vida constantemente por quem não sabe nada da nossa, mas teima em que sabe. Por isso é legítimo pedir para se trabalhar muito mais, recebendo o mesmo ou menos, mesmo estando já estudado que tal não dá resultado, cria insatisfação e os resultados de produção diminuem.

O trabalho que nos dá sustento mas também razão de realização pessoal está assim condicionado. Os resultados continuam a ter que aparecer...apenas que sejam feitos com meio ovo. Por isso a criatividade impera, embeleza-se a omelete como se pode, mesmo que quem a faça não esteja tão, arrisco-me a dizê-lo...feliz.

Felizmente há também outras perspectivas. No site do NEF (New Economics Foundation) a frase inicial é particularmente inspiradora: A economia, na perspectiva de que as pessoas e o planeta importam:
http://www.neweconomics.org/publications/21-hours. Segundo o estudo apresentado, imagine-se que há uns "loucos" que defendem e apresentam argumentos que seria benéfico para pessoas e o meio ambiente reduzir o horário para 21 horas semanais. E isto matendo as regalias financeiras e outras, para os visados. Haverá casos e casos mas só de pensar que esta perspectiva seria possível... E provavelmente haverá muitas pessoas, tal como eu, que gostam muito do que fazem e por isso não se importariam de trabalhar mais horas...mas que precisam de ser validadas e recompensadas.

Neste momento o que fazer à outra metade do ovo? Quanto a essa, seria um desperdício deitá-la fora, por isso, o melhor é juntar algo que a sustente, de preferência com outros ovos. Porque na verdade, todos nós merecemos pelo valor que temos e empenho que damos ao nosso trabalho fazer omeletes com ovos inteiros. Espero que entretanto não se lembrem de pedir às galinhas para só porem meios ovos...

Remédios Caseiros

Cada um lá tem os seus para as maleitas que aparecem. As dores de alma, aquelas do fundinho que não têm órgão anatómico mas que se espalham por todo o corpo e tem dias que parece que ainda para fora dele, criando uma nuvem cinzenta por cima da cabeça e deitando chuva por tudo por quanto passamos, essas malvadas precisam de artilharia pesada. E não falo de comprimidos que façam adormecer ou atenuar a dor. Refiro-me aos remédios caseiros, ali à mão de semear, disponíveis e prontos para aquele momento.
  1. Amigos. Daqueles com quem se pode chorar, dizer palermices, repetir vezes sem conta que se está triste e que ouvem como se fosse a primeira vez, que dão colo, surpreendem com um chá e que respeitam os silêncios.
  2. Bem sei que a comida não deve servir de conforto mas...três pedacinhos de chocolate, ou uma massa com um pouco de natas por cima serve para qué? Para dar conforto, sim senhor! E se for uma vez por outra faz mais bem do que mal.
  3. Ouvir coisas boas e positivas. A rádio pode ter este efeito quando é bem feita, quando contagia a gargalhada mesmo quando se pensava que não era possível rir naquele dia. E há programas terapêuticos, autênticas pílulas de bom-humor.
  4. Sol. Importante para produção de vitamina D e não só. Ficar apenas a saborear o calor e o quentinho mesmo em dias de frio.
E há mais. Cada um sabe dos seus remédios. Mas é não esquecê-los e tirar do armário interior para prevenir e também usar como penso rápido. E agora dão-me licença, que vou ali para o sol, ouvir rádio, enviar sms a uma amiga, enquanto como chocolate!

Voltar ao básico

E quando tudo parece sufocar porque as portas teimam em fechar é voltar ao básico. Respirar. Inspirar, expirar. Tão simples. Eficaz. Económico. Básico. Os tempos não estão fáceis. Cansada de o ouvir e sentir na pele.

E por isso mesmo já chega! Basta! Voltar ao básico: respirar tal como os bebés quando nascem. E se não podemos ficar deitados só a dormir e comer como eles, podemos reduzir ao que é mais importante só para aquele momento e para continuar a andar para a frente. O resto, todo o resto virá com o tempo, a força que entretanto vai crescendo. É que depois de se ter chegado ao fundo, e recusando que se queira permanecer por lá, é voltar a subir e respirar. Um momento de cada vez. Só isso. É experimentar fregueses, é experimentar! Inspira, expira, inspira, expira...